“A Palavra era Deus” ou “era um deus”? O que diz João 1:1
A discussão gira em torno de uma palavra sem artigo. No grego, a última frase é *kai theos ēn ho logos* — e "theos", ali, não vem com o artigo "o", enquanto na frase anterior vem.
Novo Testamento · livro 43 de 66
27 passagens difíceis explicadas em João, espalhadas por 16 capítulos.
A discussão gira em torno de uma palavra sem artigo. No grego, a última frase é *kai theos ēn ho logos* — e "theos", ali, não vem com o artigo "o", enquanto na frase anterior vem.
A palavra grega por trás deste versículo é λόγος, logos, e ela chegava aos ouvidos de um leitor do primeiro século carregada de um peso que nenhuma palavra portuguesa isolada consegue reproduzir sozinha.
Em português a frase soa como repreensão. Em grego, ela é uma expressão idiomática — *ti emoi kai soi* —, decalque de um hebraísmo que significa algo como "o que isso tem a ver conosco?" ou "em que nossos assuntos se cruzam?".
A fala do mestre-sala resolve a questão: serve-se o vinho pior "quando os convidados já estão bêbados". O verbo grego é *methysko*, e ele significa embriagar-se — não saciar a sede.
A palavra grega é *anothen*, e ela significa duas coisas: "de novo" e "do alto". João usa o duplo sentido de propósito.
A palavra grega μονογενής, monogenēs, descreve o Filho em um dos versículos mais conhecidos da Bíblia, e por trás dela existe uma disputa filológica que a maioria dos leitores nunca ouviu mencionar: de qual raiz vem a palavra?
Dito ao pé da letra, o versículo seria falso: qualquer pessoa que recebe "a água que Jesus dá" continua, fisicamente, precisando beber água todos os dias — inclusive os discípulos que já a haviam recebido continuavam com sede em outros momentos do próprio evangelho.
A leitura difundida é conhecida: ela seria uma mulher de vida desregrada, que ia ao poço ao meio-dia para evitar as outras mulheres.
A reação registrada é a chave: "duro é este discurso; quem o pode ouvir?" — e o texto acrescenta que "muitos dos seus discípulos voltaram para trás, e já não andavam com ele".
É um dos trechos mais conhecidos dos evangelhos e, ao mesmo tempo, um dos mais discutidos textualmente. Ele falta em vários manuscritos antigos, e em alguns aparece em posição diferente — inclusive no fim de João ou dentro de Lucas.
A gramática é estranha de propósito: "antes que Abraão **fosse**, eu **sou**". Passado seguido de presente, sem concordância.
A palavra grega traduzida por bom não é a comum. Ela significa belo, nobre, exemplar — a qualidade que se reconhece à vista, e não apenas a retidão moral.
Perseverança dos santos é o nome técnico da doutrina segundo a qual quem é verdadeiramente regenerado por Deus perseverará na fé até o fim, e não pode, de modo final e definitivo, perder a salvação — não porque o crente seja forte o bastante para se sustentar sozinho, mas porque Deus o sustenta.
É o versículo mais curto da Bíblia, e o que o cerca é bem mais estranho do que ele.
A palavra "odeia" aqui é linguagem semítica de contraste extremo, não instrução de autodesprezo. É a mesma estrutura de Lucas 14:26, onde Jesus diz que é preciso "odiar" pai, mãe e a própria vida para segui-lo — e ninguém lê aquele texto como mandamento de desprezar os pais, porque o próprio Jesus, no mesmo evangelho, manda honrá-los.
Lavar os pés dos convidados era serviço doméstico corriqueiro em uma cultura de estradas de terra e sandálias. Não era gesto simbólico: era necessidade prática, e cabia ao servo de posição mais baixa da casa.
É a frase mais citada nos dois lados da discussão sobre exclusividade cristã, e quase sempre fora do contexto em que foi dita.
A frase é uma das mais audaciosas do Novo Testamento, e a razão que ela própria dá costuma ser ignorada: "porque eu vou a meu Pai".
A palavra grega é *parakletos*, e ela é difícil de traduzir porque cobre várias funções ao mesmo tempo: advogado de defesa, intercessor, alguém chamado para ficar ao lado e ajudar.
O mesmo evangelho traz as duas afirmações. Em 10:30, "eu e o Pai somos um" — e a reação é apedrejamento por blasfêmia. Em 14:28, "meu Pai maior é que eu".
A palavra decisiva do trecho está no versículo 2, e ela é ambígua: o verbo grego pode significar tirar, remover — ou levantar, erguer.
Na oração que Jesus faz na véspera da sua morte, ele diz ao Pai que guardou todos os que lhe foram dados, "e nenhum deles se perdeu, a não ser o filho da perdição". Lido em português, "filho da perdição" soa como se estivesse descrevendo uma linhagem — como se Judas descendesse, de algum modo, da perdição.
Os três evangelhos sinóticos são explícitos: a Última Ceia foi a própria refeição da Páscoa, preparada no "primeiro dia da festa dos pães sem fermento", "quando sacrificavam o cordeiro da Páscoa". João, porém, parece situar a crucificação antes da Páscoa ser comida: na manhã do julgamento diante de Pilatos, os líderes judeus "não entraram no tribunal, para que não se contaminassem, mas que pudessem comer a Páscoa" (18:28) — e mais adiante chama o dia da crucificação de "a preparação da páscoa" (19:14).
Cada evangelho registra ditos diferentes de Jesus na cruz. Mateus e Marcos registram só um: o grito "Eli, Eli, lamá sabactâni" — "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?". Lucas registra três ditos diferentes, nenhum deles esse grito: o pedido de perdão pelos algozes, a promessa ao criminoso arrependido, e "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito". João registra outros três, também sem sobreposição com Lucas: o cuidado com Maria e o discípulo amado, "tenho sede", e "está consumado".
Depois da ressurreição, Pedro e outros discípulos voltam a pescar no mar da Galileia. Jesus aparece na praia, instrui um lançamento de rede que resulta numa pescaria tão grande que os discípulos não conseguem puxá-la para dentro do barco. Pedro puxa a rede sozinho até a terra, e o texto registra um detalhe incomumente preciso: cento e cinquenta e três peixes grandes, "e sendo tantos, a rede não se rompeu".
O grego tem, no Novo Testamento, mais de uma palavra corrente para "amar", e este trecho usa duas delas alternadamente: ἀγαπάω, agapaō, e φιλέω, phileō. O português quase sempre traduz as duas pela mesma palavra — "amar" —, e o jogo verbal que estrutura a cena inteira desaparece por completo na leitura em tradução.
O último versículo do quarto evangelho é uma frase de encerramento deliberadamente exagerada: se cada obra de Jesus fosse registrada por escrito, "nem mesmo o mundo poderia caber os livros escritos".