“A Palavra era Deus” ou “era um deus”? O que diz João 1:1
A discussão gira em torno de uma palavra sem artigo. No grego, a última frase é *kai theos ēn ho logos* — e "theos", ali, não vem com o artigo "o", enquanto na frase anterior vem.
6 passagens difíceis neste capítulo, explicadas com contexto histórico, línguas originais e as leituras cristãs que disputam o sentido.
A discussão gira em torno de uma palavra sem artigo. No grego, a última frase é *kai theos ēn ho logos* — e "theos", ali, não vem com o artigo "o", enquanto na frase anterior vem.
Em João 1:12-13, o prólogo diz que os que receberam o Verbo e creem em seu nome receberam o "poder" de se tornarem filhos de Deus. A palavra grega por trás de "poder" é exousia, que as traduções vertem por "poder", "direito", "autoridade" ou "privilégio". A escolha muda o sentido: não se trata de uma força interior, mas de um direito ou um status concedido por Deus. O versículo 13 reforça isso ao dizer que esses filhos não nasceram de sangue, nem de vontade da carne, nem de vontade do homem, mas de Deus. Ser filho de Deus, em João, não vem da descendência, do impulso humano nem da decisão de alguém, e sim de um dom.
A palavra grega por trás deste versículo é λόγος, logos, e ela chegava aos ouvidos de um leitor do primeiro século carregada de um peso que nenhuma palavra portuguesa isolada consegue reproduzir sozinha.
João 1:18 fecha o prólogo do quarto evangelho com uma frase que os manuscritos gregos antigos não transmitem da mesma forma. Enquanto a tradição bizantina, seguida pela Almeida e pela King James, registra "o unigênito Filho", os papiros mais antigos conhecidos e os grandes códices Sinaítico e Vaticano trazem "Deus unigênito". A diferença é de uma única palavra grega, mas ela toca diretamente como o texto descreve a relação entre Jesus e o Pai.
Ao ver Jesus se aproximando, João Batista aponta para ele: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." A frase é curta, mas reúne imagens do Antigo Testamento: o cordeiro pascal sacrificado no Egito, cujo sangue livrou o povo do juízo, e o servo sofredor de Isaías 53, comparado a um cordeiro levado ao matadouro que carrega a culpa alheia. O evangelho não diz qual delas João tinha em mente, e essa ambiguidade é parte do que a torna tão densa.
Quando Filipe conta que encontrou o Messias, "Jesus de Nazaré", Natanael reage com ceticismo: "Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?" A pergunta revela um preconceito regional real entre cidades vizinhas da Galileia, onde Nazaré era um povoado pequeno e sem prestígio, sem menção em textos importantes do Antigo Testamento nem qualquer tradição messiânica associada a ela. O que muda instantaneamente a atitude de Natanael não é um argumento teológico, mas uma frase enigmática de Jesus, "vi-te debaixo da figueira", detalhe que parece carregar significado maior do que a simples observação física, levando Natanael a uma confissão messiânica imediata e surpreendente diante dos demais presentes naquele encontro inicial.