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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Questões de tradução

Dívidas, pecados ou ofensas? Por que o Pai Nosso muda de palavra

Por que algumas orações do Pai Nosso dizem "dívidas" e outras "pecados" ou "ofensas"?

Vós, portanto, orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. Seja feita a tua vontade, tanto na terra, assim como no céu. O pão nosso de cada dia nos dá hoje. E perdoa-nos nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores. E não nos conduzas à tentação, mas livra-nos do mal; porque teu é o Reino, o poder, e a glória, para sempre, Amém. Porque se perdoardes às pessoas suas ofensas, vosso Pai celestial também vos perdoará; Mas se não perdoardes às pessoas suas ofensas, também vosso Pai não vos perdoará vossas ofensas.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O Pai Nosso que Jesus ensina em pede perdão para ὀφειλήματα, opheilēmata — palavra grega comum do vocabulário comercial, que significa literalmente "dívidas". A versão paralela da mesma oração, em , usa outra palavra: ἁμαρτίας, hamartias, "pecados" — o termo moral direto, sem metáfora financeira.

É por isso que quem cresce ouvindo o Pai Nosso em diferentes tradições cristãs no Brasil aprende versões com palavras diferentes: "as nossas dívidas", "os nossos pecados", "as nossas ofensas". Nenhuma delas é invenção livre — cada uma reflete uma decisão de tradução real, ancorada ou no grego de Mateus, ou no grego de Lucas, ou na tradição litúrgica latina que se consolidou ao longo dos séculos.

Por trás da divergência há também uma pista sobre a língua original em que Jesus provavelmente ensinou a oração.

Como isso aponta para Jesus

Tipologia

A imagem de dívida perdoada, presente no grego de Mateus e no provável substrato aramaico da oração, antecipa de forma quase literal o que Paulo descreve em : Cristo "cancelando o escrito de dívida que contra nós havia, e que nos era contrário, removendo-o do meio de nós, e pregando-o na cruz". A oração ensina os discípulos a pedir o que a cruz, mais tarde, efetivamente realiza — o cancelamento formal de uma dívida real.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Contexto histórico

O Pai Nosso aparece duas vezes nos evangelhos, em versões parecidas mas não idênticas. Em , ele está no meio do Sermão do Monte, emoldurado por um ensino sobre não orar como os hipócritas, que gostam de ser vistos orando nas esquinas, e sobre não usar "vãs repetições" como os gentios.

Em , o contexto é diferente: um discípulo pede a Jesus que os ensine a orar, "como também João ensinou aos seus discípulos", e Jesus responde com uma versão mais curta da mesma oração.

As duas versões pedem, na mesma posição da oração, o perdão de algo — e é exatamente nesse ponto que o vocabulário diverge entre os dois evangelhos. registra: "e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós também perdoamos aos nossos devedores." registra algo próximo, mas não idêntico: um pedido de perdão dos pecados, seguido, na mesma frase, por uma referência a "todo aquele que nos deve" — mantendo, de forma residual, o vocabulário de dívida no segundo membro da frase, mesmo tendo trocado o primeiro.

A passagem termina, em Mateus, com um comentário do próprio Jesus nos versículos 14 e 15, ligando diretamente o perdão que se recebe de Deus ao perdão que se concede aos outros — a única parte da oração que Jesus escolhe explicar em seguida.

Aprofundamento

A palavra grega em , ὀφειλήματα, opheilēmata, vem do vocabulário comum de transações financeiras e legais — é o termo usado para dívidas concretas, o que se deve a alguém em sentido literal, comercial. usa, na primeira parte do mesmo pedido, ἁμαρτίας, hamartias, palavra moral e religiosa direta, o termo padrão do Novo Testamento para "pecado" no sentido de falha moral diante de Deus, sem metáfora financeira.

Essa diferença entre os dois evangelhos é explicada, pela maioria dos comentaristas, por um dado sobre a língua em que Jesus provavelmente ensinou a oração originalmente: o aramaico, língua cotidiana da Judeia e da Galileia no primeiro século. Em aramaico, a palavra ḥôbâ e termos aparentados funcionavam com um duplo sentido natural — "dívida" no sentido comercial e "pecado" no sentido moral — de um modo que o grego não reproduz com uma única palavra tão facilmente. É uma metáfora comum em línguas semíticas: o pecado é entendido como uma dívida contraída diante de Deus, algo que se deve e precisa ser pago ou perdoado.

Sob essa explicação, Mateus, escrevendo provavelmente para um público judeu-cristão mais familiarizado com esse pano de fundo semítico, preserva a tradução mais literal do termo aramaico original — "dívidas". Lucas, escrevendo para um público majoritariamente gentio e de língua grega, menos habituado à metáfora financeira semítica para pecado, converte o primeiro termo para o sentido moral direto e inequívoco — "pecados" — que qualquer leitor grego entenderia sem explicação adicional. O interessante, e a evidência mais forte a favor dessa explicação, é que Lucas não converte a segunda metade da frase: ele mantém "todo aquele que nos deve", com o verbo de dever, um resíduo da metáfora original que sobrevive mesmo depois de o substantivo principal ter sido trocado por clareza.

Com esse pano de fundo filológico em mente, a divergência das tradições litúrgicas em português fica mais clara.

A tradição protestante histórica em português, refletida em versões como ARC e ARA, tende a seguir o texto grego de Mateus com fidelidade literal, resultando em "as nossas dívidas" — e essa é também, historicamente, a forma mais cantada e recitada nos hinários e liturgias protestantes brasileiras, o que reforça sua permanência popular mesmo entre quem não tem contato direto com o grego.

A tradição litúrgica católica em português, por outro lado, reza tradicionalmente "perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" — fórmula consolidada pelo uso litúrgico ao longo de séculos, remontando à tradição latina do Pai Nosso na liturgia ocidental, e que se distancia tanto de "dívidas" quanto de "pecados" ao optar por um termo relacional, "ofensas", que enfatiza o dano causado a outra pessoa mais do que a dívida financeira ou a falha moral abstrata perante Deus.

Traduções bíblicas voltadas à leitura corrente tendem a preservar a distinção entre os dois evangelhos tal como está no grego — "dívidas" em , "pecados" em —, sem harmonizar as duas passagens numa palavra só, respeitando o fato de que os dois evangelhos, de fato, escolheram vocabulário diferente para o mesmo pedido.

O que este verbete não pode fazer, com honestidade, é atribuir a nenhuma versão específica em português uma redação exata sem plena certeza dela — o que importa reter é o padrão geral: o texto bíblico de Mateus e o de Lucas usam palavras gregas diferentes, por razões filológicas prováveis ligadas à língua original da oração e ao público de cada evangelho; e a liturgia católica, historicamente, desenvolveu uma terceira via com "ofensas", vocabulário que nem Mateus nem Lucas usam no grego, mas que se consolidou pelo uso litúrgico secular.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:Uma das três palavras — "dívidas", "pecados" ou "ofensas" — é a tradução errada.

    "Dívidas" traduz fielmente o grego de ; "pecados" traduz fielmente o grego de ; "ofensas" reflete a tradição litúrgica latina consolidada por séculos de uso na liturgia ocidental. As três têm base textual ou histórica real.

  • Dizem que:Mateus e Lucas registram exatamente a mesma oração, palavra por palavra.

    As duas versões são parecidas na estrutura, mas divergem em vocabulário e em extensão — Lucas traz uma forma mais curta, e a diferença entre "dívidas" e "pecados" é uma das divergências lexicais mais claras entre elas.

  • Dizem que:A metáfora da dívida é invenção posterior à Bíblia.

    Ela está no próprio grego de e reaparece explicitamente em , com Paulo descrevendo o perdão como cancelamento de um "escrito de dívida". A metáfora é bíblica, não é adição litúrgica tardia.

Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Tradição litúrgica católica — "ofensas"

    Consolidada pelo uso secular da liturgia latina ocidental. Opta por vocabulário relacional, enfatizando o dano entre pessoas, distinto tanto do grego de Mateus quanto do de Lucas.

  • Tradição bíblica protestante histórica — "dívidas"

    Segue com fidelidade literal o grego de (opheilēmata), preservando a metáfora financeira do pecado como dívida, presente também no provável substrato aramaico da oração original de Jesus.

  • Leitura harmonizadora — "pecados"

    Segue o grego de (hamartias), preferido por quem busca o termo moral mais direto e imediatamente compreensível, sem a mediação da metáfora comercial presente em Mateus.

No original3 termos
  • ὀφειλήματαopheilēmata

    "Dívidas", termo do vocabulário comercial e legal grego, usado em . Reflete provavelmente a metáfora aramaica original de pecado como dívida contraída diante de Deus.

  • ἁμαρτίαςhamartias

    "Pecados", termo moral e religioso direto, usado em no mesmo ponto da oração. Provável adaptação para um público grego menos familiarizado com a metáfora semítica da dívida.

  • ὀφειλέτηςopheiletēs

    "Devedor", "aquele que deve". Presente em ambos os evangelhos na segunda metade do pedido, mesmo em Lucas — resíduo da metáfora financeira que sobrevive à troca do substantivo principal.

O que fazer com isso

Saber que "dívidas" vem de Mateus, "pecados" vem de Lucas, e "ofensas" vem da tradição litúrgica latina não é exercício de erudição vazia — ajuda a entender por que cristãos de tradições diferentes, rezando a mesma oração de Jesus, usam palavras diferentes sem que nenhum deles esteja "errado" ou tenha alterado o texto por conta própria.

Há também um ganho teológico real em reconhecer a metáfora da dívida, presente no grego de Mateus e mais nitidamente ainda no provável pano de fundo aramaico: pecado, nessa imagem, não é apenas falha moral abstrata — é algo que se deve, uma obrigação não paga que precisa ser cancelada por outra parte. Essa metáfora ressurge com força total em , onde Paulo descreve Cristo cancelando "a cédula de dívida que contra nós havia" e a pregando na cruz — a mesma imagem financeira do Pai Nosso, agora aplicada diretamente à obra da cruz.

O comentário do próprio Jesus, logo depois da oração, em , é o lembrete mais prático de todos: seja qual for a palavra escolhida — dívida, pecado ou ofensa —, o texto liga o perdão que se recebe ao perdão que se concede, sem deixar espaço para pedir um sem praticar o outro.

Passagens relacionadas6

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Fontes consultadas4 obras
  • Marvin Vincent. Word Studies in the New Testament, 1887.
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • John Lightfoot. Horae Hebraicae et Talmudicae, 1675.
  • Joseph Henry Thayer. A Greek-English Lexicon of the New Testament, 1889.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que Mateus e Lucas usam palavras diferentes na mesma oração?

Provavelmente porque Jesus ensinou a oração originalmente em aramaico, língua em que "dívida" e "pecado" compartilhavam vocabulário. Mateus preserva a metáfora financeira; Lucas, escrevendo para leitores gregos, converte para o termo moral direto.

De onde vem "ofensas", já que não está em nenhum dos dois evangelhos?

Da tradição litúrgica latina ocidental, consolidada ao longo de séculos de uso na liturgia católica, com vocabulário relacional próprio, distinto do grego de Mateus e de Lucas.

Existe uma versão "mais correta" para se orar hoje?

Não no sentido de anular as outras. Cada tradição herdou uma base textual ou litúrgica legítima, e o próprio Jesus, ao explicar a oração logo depois, foca no princípio comum às três formas: o perdão recebido deve gerar o perdão concedido.

Temas

Publicado em 09/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 3 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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