
Os mortos que saíram dos túmulos quando Jesus morreu
Quem foram os santos que ressuscitaram em Mateus 27?
Os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos que tinham morrido foram ressuscitados. E, depois de ressuscitarem, saíram dos sepulcros, vieram à santa cidade, e apareceram a muitos.
Resposta curta
Dois versículos, e uma lista de perguntas que o texto não responde: quem eram, quantos eram, o que aconteceu depois, e por que nenhum outro evangelho — nem qualquer fonte antiga — menciona um acontecimento desse porte.
O detalhe mais estranho está na cronologia. Os sepulcros se abrem quando Jesus morre, na sexta-feira, mas a saída só acontece "depois de ressuscitarem", ou seja, **depois da ressurreição dele**, no domingo. É uma pausa de dois dias no meio da narrativa, e ela não é acidente: Mateus está subordinando o episódio à ressurreição de Jesus, e não o contrário.
As leituras sérias vão da mais literal à mais simbólica, e a honestidade obriga a dizer que o texto é curto demais para decidir entre elas.
Como isso aponta para Jesus
TipologiaA pausa de dois dias entre a abertura dos sepulcros e a saída é o detalhe teológico do episódio: nada acontece antes de Jesus ressuscitar. Paulo diz isso sem imagem, com uma palavra de colheita — Cristo é as primícias, o primeiro feixe que garante a safra inteira, e os que são dele vêm na vinda dele. O que Mateus mostra em cena, Paulo enuncia como regra.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Em palavras simples
São só dois versículos, curtos e sem detalhes: não dizem quem eram essas pessoas, quantas, nem o que aconteceu com elas depois. Nenhum outro evangelho, e nenhuma outra fonte da época, menciona o episódio — o que pede cautela, não certeza de que não aconteceu.
Um detalhe interessante: os túmulos se abrem quando Jesus morre, na sexta-feira, mas as pessoas só saem deles depois que ele ressuscita, no domingo. Essa pausa parece proposital — tudo depende da ressurreição de Jesus primeiro.
Há leituras diferentes e sérias: que aconteceu literalmente, num evento local; que é linguagem típica de textos proféticos para anunciar um significado maior; ou que foram poucos casos reais, usados como sinal. O texto é curto demais para decidir com certeza, e é mais honesto admitir isso. O que fica claro em qualquer leitura: a morte de Jesus abalou tudo.
Contexto histórico
A passagem está dentro de uma sequência de sinais que Mateus enfileira no momento da morte: trevas por três horas, o véu do templo rasgado de alto a baixo, um terremoto, as rochas fendidas — e então os sepulcros. O conjunto termina com a reação do centurião romano: "verdadeiramente este era o Filho de Deus".
Isso importa para ler os dois versículos, porque eles não são uma notícia isolada: são o último de uma série de sinais cósmicos, e a série toda tem função teológica declarada. Mateus é o evangelho que mais cita o Antigo Testamento, e cada sinal aqui ecoa um texto profético.
O eco mais forte é , a visão do vale de ossos secos, onde Deus promete: "abrirei os vossos sepulcros, e vos farei subir das vossas sepulturas, ó povo meu". A frase de Mateus usa praticamente o mesmo vocabulário. também está no fundo: "muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão" — e Mateus escreve exatamente "muitos corpos".
"Santa cidade" é como Mateus chama Jerusalém, e ele já usou a expressão no capítulo 4. Não é um lugar novo; é a mesma cidade, nomeada pelo que ela representa.
Aprofundamento
O silêncio das outras fontes é o dado mais discutido. Marcos, Lucas e João registram as trevas e o véu rasgado, mas não isto. Josefo, que escreve extensamente sobre a Jerusalém do período e é atento a prodígios, não menciona nada parecido. E os próprios Atos, ao narrar a pregação apostólica, jamais invocam o episódio — o que seria um argumento e tanto.
Quem defende a leitura literal responde que Mateus escreve para leitores judeus, que o evento pode ter sido local e breve, e que o silêncio de fontes antigas não é prova de não ocorrência. É uma resposta legítima, e o próprio texto diz "apareceram a muitos", sugerindo alcance limitado e não um espetáculo público.
Quem defende a leitura simbólica ou apocalíptica observa que a linguagem é a do gênero apocalíptico judaico — terremotos, sepulcros que se abrem, sinais cósmicos —, um repertório que os leitores originais liam como declaração teológica e não como reportagem. Nessa chave, Mateus estaria dizendo que a morte de Jesus quebrou o poder da morte, usando as imagens que Ezequiel e Daniel já tinham fixado para isso.
Há ainda uma leitura intermediária, que trata o episódio como antecipação real e sinalizadora: um punhado de casos, verdadeiros, cuja função é servir de sinal — do mesmo modo que Lázaro voltou para morrer de novo, e não como primícia.
O que **não** é possível é decidir a questão pela gramática ou pelo vocabulário. Os dois versículos são curtos, sem nomes, sem número e sem desfecho — e essa ausência de detalhe é justamente o que sustenta a discussão. Quem afirmar certeza aqui está afirmando mais do que o texto permite.
Um ponto de acordo, esse sim amplo: seja qual for a leitura, o episódio é apresentado como **dependente** da ressurreição de Jesus. A pausa de dois dias existe para isso. Paulo dirá a mesma coisa com outra imagem — Cristo é as primícias, e os que são dele vêm depois.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Os ressuscitados eram os santos do Antigo Testamento, e subiram ao céu com Jesus.
O texto não diz nada disso — não dá nomes, não dá número e não conta o desfecho. Toda essa reconstrução vem de tradição posterior e de literatura apócrifa, não de Mateus. Preencher silêncio com detalhe é o que produz a maioria das lendas bíblicas.
Dizem que:O episódio prova que a Bíblia se contradiz, já que ninguém mais o menciona.
Silêncio de outras fontes não é contradição — nenhum outro texto afirma que isso não aconteceu. É um argumento do silêncio, que sugere cautela e não refutação. Mateus tem material próprio em várias passagens, como todo evangelho tem.
Dizem que:Eles ressuscitaram para a vida eterna, como Jesus.
O texto não afirma isso, e a lógica do Novo Testamento aponta para o contrário: Paulo chama Cristo de primícias, o primeiro, e coloca a ressurreição dos que são dele na vinda dele. O caso mais próximo é Lázaro, que voltou e depois morreu — reanimação, não glorificação.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura literal
Aconteceu como está escrito: pessoas voltaram à vida e foram vistas em Jerusalém, num evento local e breve. O silêncio das outras fontes se explicaria pelo alcance limitado — o próprio texto diz "apareceram a muitos", e não "a todos". É a leitura tradicional na maior parte da história da igreja.
Leitura apocalíptica
Mateus usa o repertório do gênero apocalíptico judaico — terremoto, sepulcros abertos, sinais cósmicos — para declarar o significado da morte de Jesus, do mesmo modo que não descreve ossos literais se levantando num vale. O leitor original reconheceria a citação. Comum na erudição contemporânea, inclusive entre autores conservadores.
Leitura de sinal antecipatório
Um número pequeno de casos reais, com função de sinal: mortes desfeitas para anunciar o que a ressurreição de Jesus inaugura, sem serem elas mesmas a ressurreição final. Explica bem a pausa de dois dias e a ausência de qualquer desfecho no relato.
No original3 termos
ἐγέρθησανegerthēsanG1453
Foram levantados. Voz passiva — não se levantaram sozinhos, foram levantados. É o mesmo verbo usado para a ressurreição de Jesus.
κοιμάομαιkoimaomaiG2837
Dormir. O eufemismo usual do Novo Testamento para a morte de quem tem esperança — está por trás de "que tinham morrido".
ἁγία πόλιςhagia polis
"Santa cidade" — Jerusalém. Mateus já usa a expressão em 4:5; não é um lugar diferente, é a mesma cidade nomeada pelo que representa.
O que fazer com isso
É um bom lugar para praticar uma distinção que este site faz muito: a diferença entre "a Bíblia não diz" e "eu não sei". Aqui as duas coisas coincidem, e não há nada de errado nisso.
O que o texto quer que se leve é o que ele mesmo repete: a morte de Jesus abalou o mundo, rasgou o que separava as pessoas do santuário e abriu sepulcros. Se isso aconteceu com alguns corpos naquele domingo ou se está dito em imagem, o anúncio é o mesmo — a morte deixou de ser a última palavra.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- John Lightfoot. Horae Hebraicae et Talmudicae, 1675.
- Albert Barnes. Notes on the New Testament, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Eles morreram de novo?
O texto não diz. Pela lógica do Novo Testamento, que chama Cristo de primícias e coloca a ressurreição dos seus na vinda dele, a resposta provável é sim — como Lázaro. Mas isso é inferência, não afirmação do texto.
Por que só Mateus conta isso?
Cada evangelho tem material próprio, e Mateus é o que mais recorre ao Antigo Testamento — este episódio ecoa e de forma direta. O silêncio dos outros sugere cautela na interpretação, mas não é contradição.
Qual é a leitura mais aceita hoje?
Não há maioria clara. A literal domina a história da igreja; a apocalíptica ganhou espaço na erudição recente, inclusive entre autores conservadores. O texto é curto demais para decidir, e dizer isso é mais honesto do que escolher por conveniência.
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