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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Contradições aparentes

Um endemoninhado gadareno, ou dois? Marcos, Lucas e Mateus divergem

Havia um endemoninhado em Gadara, como dizem Marcos e Lucas, ou dois, como diz Mateus?

E chegaram ao outro lado do mar, à terra dos Gadarenos. Assim que Jesus saiu do barco, veio das sepulturas ao seu encontro um homem com um espírito imundo, que morava nas sepulturas, e nem mesmo com correntes conseguiam prendê-lo; pois muitas vezes fora preso com grilhões e correntes; mas as correntes eram por ele feitas em pedaços, os grilhões eram esmigalhados, e ninguém o conseguia controlar. E sempre dia e noite andava gritando pelos montes e pelas sepulturas, e ferindo-se com pedras. Quando ele viu Jesus de longe, correu e prostrou-se diante dele. E gritou em alta voz: Que tenho eu contigo Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Imploro-te por Deus que não me atormentes. (Pois Jesus havia lhe dito: “Sai deste homem, espírito imundo”.) Então perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E respondeu: Legião é o meu nome, porque somos muitos. E rogava-lhe muito que não os expulsasse daquela terra. Havia ali perto dos montes uma grande manada de porcos pastando. E todos aqueles demônios rogaram-lhe, dizendo: Manda-nos para aqueles porcos, para que entremos neles. Imediatamente Jesus lhes permitiu. Então aqueles espíritos imundos saíram para entrar nos porcos; e a manada lançou-se abaixo no mar; (eram quase dois mil) e afogaram-se no mar.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

e narram, com riqueza de detalhe quase idêntica, o encontro de Jesus com um único homem endemoninhado na região dos gadarenos — um homem que morava entre os sepulcros, que ninguém conseguia prender com correntes, e cujo nome era "Legião". , narrando o mesmo episódio na região dos gergesenos, fala de "dois endemoninhados" que saíram ao encontro de Jesus.

É o mesmo tipo de divergência do caso dos dois cegos de Jericó, e vale examiná-los como um par, porque o padrão que explica um explica o outro: um evangelista nomeia e desenvolve a figura que fala e protagoniza o diálogo; outro registra, de forma mais compacta, que havia mais de uma pessoa na cena, sem desenvolver a segunda.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

O nome "Legião" e a submissão completa dos espíritos ao comando de Jesus — sem exorcismo prolongado, sem ritual, apenas ordem direta — são o ponto teológico do episódio nos três relatos, independentemente do número de possessos envolvidos. A cena antecipa, em miniatura, o padrão que os evangelhos atribuem à autoridade de Jesus sobre toda oposição espiritual, tema que Paulo desenvolverá depois em termos cósmicos.

Respaldo no Novo Testamento:

Contexto histórico

Os três relatos concordam no essencial: Jesus atravessa o mar da Galileia de barco; ao desembarcar numa região a leste, é recebido por um ou mais homens possessos que vivem entre os túmulos, com força sobre-humana capaz de romper correntes; os demônios pedem para entrar numa manada de porcos que pasta próxima; Jesus permite; a manada se lança ao mar e se afoga.

e desenvolvem a cena em torno de um único homem: descrevem sua condição com detalhe extenso — morava nos sepulcros, ninguém conseguia dominá-lo nem com correntes, andava gritando e ferindo-se com pedras (só em Marcos) —, registram o diálogo entre Jesus e o homem, incluindo a pergunta "qual é teu nome?" e a resposta "Legião... porque somos muitos".

é mais compacto: "vieram-lhe ao encontro dois endemoninhados que tinham saído dos sepulcros. Eles eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho." O relato de Mateus não distingue os dois nem lhes dá diálogo individual — a fala de súplica aos demônios ("que temos contigo, Jesus, Filho de Deus?") é atribuída aos dois juntos, sem que o texto marque qual deles fala, ou se falam em uníssono.

O local também varia no nome entre manuscritos e traduções — "gadarenos" em Marcos e Lucas, "gergesenos" em Mateus — variação geográfica que reflete a proximidade de duas cidades da região (Gadara e Gerasa/Gergesa), mas que não é o foco deste verbete, dedicado à divergência de número.

Aprofundamento

A explicação predominante para a diferença de número, sustentada por comentaristas de tradições diversas há séculos, é de foco narrativo, não de fato contraditório: onde havia dois homens possessos, Marcos e Lucas escolheram desenvolver a história em torno daquele cuja condição era mais dramática e cujo diálogo com Jesus era mais rico — o que tinha o nome "Legião", pedia para não ser atormentado, e depois do exorcismo pediria para seguir Jesus (; ). O segundo homem, presente mas sem papel de destaque na cena, simplesmente não aparece nos relatos mais detalhados. Mateus, escrevendo de forma mais compacta em todo o seu evangelho — um padrão observável em vários episódios, não uma peculiaridade deste —, registra o número completo sem desenvolver a cena com o mesmo grau de detalhe pessoal.

Um argumento a favor dessa leitura, e não apenas uma tentativa de salvar a consistência a qualquer custo, é que Marcos e Lucas nunca escrevem "havia apenas um endemoninhado" ou "ninguém mais estava ali". Eles simplesmente centram o relato num homem, o que é compatível — não incompatível — com a presença de um segundo, menos falante ou menos conhecido na tradição oral que cada evangelista herdou. A ausência de menção não é o mesmo que negação, a mesma distinção que resolve o caso análogo do galo que cantou duas vezes: Mateus e Lucas, ali, não negam o segundo canto que só Marcos registra; aqui, Marcos e Lucas não negam o segundo homem que só Mateus registra. O padrão se repete de forma simétrica entre os evangelhos, o que é ele mesmo um dado a favor da explicação de foco narrativo, e não de erro de um lado ou de outro.

Uma segunda observação, menos discutida, ajuda a entender por que o padrão de "um evangelista foca, outro soma" aparece tantas vezes nesta família de textos: os evangelhos não são transcrições judiciais preocupadas em registrar todos os presentes numa cena, mas narrativas construídas em torno do que cada autor considera teologicamente relevante para seu leitor. Marcos e Lucas usam o episódio para desenvolver, com riqueza incomum em qualquer outro exorcismo dos evangelhos, o contraste entre o estado de completa dominação demoníaca do homem e a autoridade de Jesus sobre "Legião" — um nome que evoca, deliberadamente, uma unidade militar romana de milhares de soldados, reforçando a extensão do poder que Jesus enfrenta e vence. Esse propósito literário e teológico é mais bem servido concentrando a narrativa num protagonista do que dividindo a atenção entre dois.

O que resta, depois de reconhecida essa explicação, é honesto dizer que ela é, como no caso do galo, uma inferência razoável de coerência narrativa — apoiada no padrão observável noutros textos —, não uma harmonização que os próprios evangelhos declarem entre si. Nenhum dos três diz "havia dois, mas só um tinha algo digno de nota". É a leitura mais simples e mais amplamente aceita, e ela não exige nenhuma reconstrução exótica — apenas reconhecer que "um homem veio ao encontro de Jesus" e "dois homens vieram ao encontro de Jesus" descrevem a mesma cena com grau diferente de detalhe, o que é o tipo de variação mais comum entre testemunhas reais de um mesmo evento.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Mateus contradiz Marcos e Lucas sobre quantos endemoninhados havia.

    Nenhum dos três nega o que os outros afirmam. Marcos e Lucas não dizem "havia apenas um"; concentram a narrativa num protagonista, sem negar a presença do segundo que Mateus registra.

  • Dizem que:Esse é um problema exclusivo deste episódio.

    É o mesmo padrão do caso dos dois cegos de Jericó ( versus e ) — um evangelista soma o que outro concentra em um só protagonista. Reconhecer o padrão em ambos os casos reforça, em vez de enfraquecer, a leitura de foco narrativo.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Foco narrativo: um protagonista desenvolvido, o segundo presente mas não destacado

    Leitura predominante entre os comentaristas. Apoia-se no fato de que nenhum dos relatos nega a presença de uma segunda pessoa, e no padrão simétrico observável no caso do galo de , em que a relação de detalhe se inverte entre os evangelistas.

  • Ênfase teológica no nome "Legião" como razão para concentrar a narrativa num só homem

    Observa que o propósito literário de Marcos e Lucas — mostrar a autoridade de Jesus sobre uma multidão de forças hostis representada por um homem — é mais bem servido por um protagonista único. Complementa, sem substituir, a explicação de foco narrativo.

No original2 termos
  • Λεγιώνlegion

    "Legião". Nome dado pelo espírito em e , evocando uma unidade militar romana de milhares — usado só nos dois relatos que desenvolvem a cena em torno de um único homem.

  • δύο δαιμονιζόμενοιdyo daimonizomenoi

    "Dois endemoninhados". Expressão exclusiva de , sem desenvolvimento individual de cada um dos dois na continuação do relato.

O que fazer com isso

O padrão que resolve este caso — e o caso análogo dos dois cegos de Jericó — vale a pena nomear como regra geral de leitura de textos paralelos: quando um relato menciona uma pessoa e outro menciona duas na mesma cena, sem que nenhum dos dois negue explicitamente a presença da segunda, a explicação mais simples é foco narrativo, não erro factual. É exatamente o tipo de variação que se espera de relatos genuinamente independentes, escritos com propósitos literários próprios, e não de cópias mecânicas umas das outras.

Há também uma lição sobre o nome "Legião" que vale reter além da questão numérica: o relato de Marcos e Lucas usa a cena para mostrar uma autoridade que se estende sobre uma multidão de forças hostis representada por um único homem — o que, se qualquer coisa, torna a variação de número (um ou dois possessos) secundária ao ponto real do episódio, que nenhum dos três evangelhos disputa: o poder de Jesus sobre o que quer que estivesse dominando aqueles homens era completo e imediato.

Passagens relacionadas4

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown. A Commentary, Critical and Explanatory, on the Whole Bible, 1871.
  • Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
  • Alfred Edersheim. The Life and Times of Jesus the Messiah, 1883.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Os três evangelhos concordam sobre o essencial do episódio?

Sim: a travessia do mar, o encontro com possessos vivendo entre os sepulcros, a súplica dos demônios para entrar nos porcos, e a manada se afogando no mar. A divergência é apenas sobre o número de homens possessos.

Por que Marcos e Lucas não mencionam o segundo homem, se ele estava lá?

A explicação mais aceita é de foco narrativo: os dois evangelistas desenvolvem a cena em torno do homem cujo diálogo com Jesus era mais rico e cujo nome, "Legião", servia ao propósito teológico do relato. Ausência de menção não é negação da presença.

Esse padrão aparece em outro lugar dos evangelhos?

Sim, de forma simétrica, no caso dos dois cegos de Jericó, em que Mateus menciona dois e Marcos e Lucas mencionam um só, chamado Bartimeu. Ver o verbete correspondente.

Temas

  • #gadarenos
  • #endemoninhado
  • #marcos
  • #mateus
  • #novo-testamento

Publicado em 06/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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