
O que realmente contamina uma pessoa?
Por que Jesus disse que nada que entra pode contaminar?
Nada há fora do ser humano que nele entre que o possa contaminar; mas o que dele sai, isso é o que contamina o ser humano.
Resposta curta
A frase encerra uma discussão que não era sobre higiene nem sobre dieta. Os discípulos foram criticados por comer sem a lavagem ritual das mãos — prática da tradição oral, não da Torá escrita.
O que Jesus faz antes de dizer isso é distinguir duas coisas que estavam coladas: "deixando o mandamento de Deus, retendes a tradição dos homens".
E o exemplo que ele dá é devastador, porque não é sobre lavar as mãos: é sobre gente que deixava de sustentar os pais declarando os bens como oferta ao templo.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoO comentário do evangelista — "declarou puros todos os alimentos" — abre a porta que atravessa, quando Pedro ouve "o que Deus purificou não chames tu de comum" e vai à casa de um gentio. E o problema que a lista do versículo 21 nomeia é o mesmo que promete resolver: um coração novo, e não um procedimento melhor.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A discussão que gerou essa frase não era sobre higiene nem dieta. Discípulos comeram sem uma lavagem ritual das mãos, costume religioso criado depois da lei escrita, e não uma questão de limpeza.
Jesus dá um exemplo de como esse tipo de tradição podia sair do controle: alguém podia declarar seus bens como 'doados a Deus' e, com isso, ficar livre de sustentar os próprios pais — descumprindo um mandamento escondido atrás de uma regra religiosa.
Jesus não era contra toda tradição — ele mesmo vivia a religião normalmente. O que ele expõe é o momento em que uma regra criada para proteger algo passa a valer mais do que aquilo que deveria proteger. E a lista do que realmente contamina uma pessoa — inveja, orgulho, maldade — é quase toda feita de coisas que ninguém de fora consegue enxergar.
Contexto histórico
Escribas vindos de Jerusalém observam que os discípulos comem com as mãos "impuras", isto é, sem a lavagem cerimonial.
Marcos, escrevendo para leitores não judeus, para a narrativa e explica o costume — sinal de que o público dele não conhecia a prática.
A lavagem ritual das mãos antes das refeições não está na Torá para leigos; a lei a exige dos sacerdotes ao ministrar. A extensão a todo mundo, em toda refeição, é da tradição oral.
Jesus responde citando — "este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; ensinando doutrinas que são preceitos dos homens".
E então dá o exemplo do *corbã*: alguém declarava um bem como consagrado ao templo e, com isso, ficava dispensado de usá-lo para sustentar pai e mãe.
A acusação é precisa. Uma regra religiosa estava sendo usada para anular o quinto mandamento — e o quinto mandamento é da lei escrita.
Aprofundamento
A frase do versículo 15 é apresentada como enigma, e Marcos registra que os discípulos não entenderam e perguntaram depois, em casa.
A explicação que Jesus dá tem duas partes. A primeira é quase grosseira em sua concretude: o que entra vai ao ventre e sai, sem tocar o coração. A segunda é a lista do versículo 21 — do coração saem maus pensamentos, adultérios, prostituições, homicídios, furtos, avareza, malícias, engano, inveja, blasfêmia, soberba, loucura.
São treze itens, e a maioria não tem nada a ver com ritual.
O comentário do evangelista no versículo 19 — "assim declarou puros todos os alimentos" — é um dos poucos lugares em que Marcos interrompe a narrativa para tirar uma conclusão. E é uma conclusão de grande alcance, considerando que ele escreve para uma igreja que ainda discutia isso, como e 15 mostram.
Vale separar duas coisas que a passagem separa e que costumam ser confundidas.
A primeira é a lei escrita — o que a Torá de fato manda. A segunda é a tradição construída em volta dela para protegê-la. O judaísmo chamava isso de "cerca em torno da Torá", e a intenção era boa: se você para bem antes do limite, nunca o cruza.
Jesus não ataca a existência de tradições. O que ele expõe é o momento em que a cerca passa a valer mais do que o que ela cercava — e o caso do *corbã* é o exemplo extremo, porque ali a cerca não só substituiu o mandamento: serviu para descumpri-lo com aparência de piedade.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A discussão era sobre higiene.
A lavagem em questão era cerimonial, não sanitária, e a Torá a exige de sacerdotes ao ministrar, não de leigos em toda refeição. A extensão vem da tradição oral.
Dizem que:Jesus rejeitava toda tradição religiosa.
Ele frequentava a sinagoga, subia às festas e cita a Escritura constantemente. O que ele expõe é o ponto em que a tradição passa a anular o mandamento — e o exemplo dado é o corbã.
Dizem que:A passagem trata só de alimentos.
A explicação que Jesus dá é uma lista de treze itens, e quase nenhum é ritual. O comentário do evangelista sobre alimentos é uma consequência, não o assunto.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Distinção entre lei escrita e tradição
O alvo é a tradição que anula o mandamento, com o corbã como exemplo. Sustentada pela citação de e pela estrutura do capítulo. É a leitura direta.
Deslocamento do critério para o interior
A lista do versículo 21 move a avaliação para o que nenhuma conferência externa alcança. Explica a segunda metade do capítulo.
No original3 termos
κοινόωkoinoo
"Tornar comum, contaminar". Impureza ritual, e não sujeira — o oposto de "santo", isto é, separado.
κορβᾶνkorban
"Oferta consagrada". Marcos traduz o termo para os leitores. Declarar um bem assim dispensava seu uso para outros fins, inclusive sustentar os pais.
παράδοσιςparadosis
"Tradição", literalmente o que é transmitido. Paulo usa a mesma palavra em sentido positivo em — o termo não é negativo em si.
O que fazer com isso
O teste que a passagem oferece é verificável, e não depende de conhecer as tradições do primeiro século.
A pergunta é se uma prática religiosa está, em algum caso concreto, servindo para deixar de fazer o que é claramente devido. O *corbã* permitia não sustentar os pais. É esse tipo de efeito que a passagem procura.
E há a segunda metade, que é mais incômoda que a primeira. A lista do versículo 21 é composta quase inteiramente de coisas invisíveis para quem observa de fora — inveja, soberba, malícia, engano.
São exatamente as que nenhum sistema de conferência externa alcança. Um grupo pode verificar lavagem de mãos; não pode verificar inveja.
O deslocamento que Jesus propõe leva a atenção para o único lugar onde ninguém mais consegue olhar.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- John Lightfoot. Horae Hebraicae et Talmudicae, 1675.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O que era a "cerca em torno da Torá"?
A prática de criar regras adicionais para impedir que alguém chegasse perto de violar um mandamento. A intenção era protetiva, e a passagem não a condena em si — expõe o caso em que ela substitui o que protegia.
Cristãos podem comer qualquer coisa?
traz o comentário do evangelista, narra a visão de Pedro, e não impõe leis alimentares aos gentios. acrescenta que ninguém deve julgar o outro por essa escolha.
Por que Marcos explica o costume judaico?
Porque escreve para leitores não judeus, que não conheciam a prática. É uma das evidências internas sobre o público original do evangelho.
Temas
- A Lei
- #marcos
- #pureza
- #tradicao
- #alimentos
- #novo-testamento