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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Expressões hebraicas

Por que Marcos acrescenta "entendimento" ao Shemá?

O maior mandamento inclui a mente?

amarás, pois, ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento, e com todas as tuas forças.” Este é o primeiro mandamento.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

lista três: coração, alma e força. Marcos lista quatro, acrescentando "entendimento" — e Mateus lista três, mas substitui a força pelo entendimento.

A variação é real e é conhecida. A explicação mais aceita não é que alguém tenha corrigido Moisés: é que o hebraico *levav*, "coração", já incluía o que o português chama de mente.

Na antropologia hebraica, o coração é a sede do pensamento e da decisão, não do sentimento. O que os evangelhos fazem, ao acrescentar "entendimento", é traduzir para o grego o que a palavra hebraica já carregava.

Como isso aponta para Jesus

Cumprimento direto

Jesus responde a uma pergunta sobre o maior mandamento e acrescenta um segundo que não foi pedido, ligando amor a Deus e amor ao próximo numa unidade. dá a versão nova — "que vos ameis uns aos outros, como eu vos amei" —, e a medida deixa de ser "como a ti mesmo". Paulo conclui em que "o amor é o cumprimento da lei".

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

O mandamento original, no Antigo Testamento, fala em amar a Deus 'de todo coração, de toda alma e de toda força'. Um relato do Novo Testamento acrescenta um quarto item: 'de todo entendimento'. Parece mudança, mas não é.

Na língua original, a palavra traduzida por 'coração' já significava a sede do pensamento e da decisão — não só dos sentimentos, como em português. Pensar bem já fazia parte de amar com o coração. Uma tradução muito antiga do Antigo Testamento já tinha trocado 'coração' por 'entendimento' nesse mesmo texto. O Novo Testamento não inventou nada — só deixou explícito o que a palavra original já continha.

O efeito prático: essa lista não separa a pessoa em compartimentos. Repete 'todo' quatro vezes de propósito, para dizer 'inteiramente' — incluindo a mente.

Contexto histórico

A cena é uma pergunta feita por um escriba, e é uma das poucas conversas amistosas de Jesus com um mestre da lei nos evangelhos.

A pergunta — qual é o primeiro de todos os mandamentos — era discutida entre rabinos, que contavam seiscentos e treze mandamentos na Torá e debatiam como organizá-los.

Jesus responde citando o Shemá, a confissão recitada duas vezes por dia por judeus observantes: "ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor".

E acrescenta um segundo mandamento que não foi pedido, tirado de : amar o próximo como a si mesmo.

O escriba concorda e desenvolve, dizendo que isso "é mais do que todos os holocaustos e sacrifícios" — eco de e .

E Jesus responde: "não estás longe do reino de Deus". Marcos fecha registrando que ninguém mais ousava interrogá-lo.

Aprofundamento

A antropologia hebraica não divide a pessoa como o pensamento grego dividiu.

*Levav* — coração — é onde se pensa, se delibera e se decide. fala de quem "pensa em sua alma"; descreve "todo o desígnio dos pensamentos do coração"; e o rei Salomão pede um "coração que ouve" para julgar, isto é, discernimento.

Quando o português diz "decorar" — literalmente, "de coração" —, guarda um resto dessa ideia.

*Nefesh* — alma — não é a parte imaterial em oposição ao corpo; designa a pessoa viva inteira, e é a mesma palavra usada para animais em .

*Meod* — traduzido por "força" — é literalmente "muito", "abundância". Targuns aramaicos o interpretam como "bens", e a tradição judaica o lê como recursos e posses.

A Septuaginta, ao traduzir , já usa *dianoia* — entendimento — para *levav*. Ou seja: o acréscimo dos evangelhos não é uma inovação cristã, e sim uma escolha de tradução que a versão grega do Antigo Testamento já havia feito séculos antes.

A implicação é que as listas não são uma tentativa de dividir a pessoa em compartimentos. São um modo semítico de dizer "inteiramente", pela acumulação de termos que se sobrepõem.

A repetição de "todo" antes de cada item é o que carrega o sentido — quatro vezes em Marcos.

Sobre a inclusão explícita do entendimento, ela tem consequência prática. Ela torna difícil sustentar que a fé cristã seja indiferente ao pensamento, ou que exigir clareza seja falta de espiritualidade. O mandamento maior, na formulação que os evangelhos dão, inclui a mente por nome.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:Os evangelhos corrigiram ou acrescentaram algo ao Shemá.

    A Septuaginta já traduzia *levav* por *dianoia*, entendimento, séculos antes. O que os evangelhos fazem é explicitar em grego o que a palavra hebraica de "coração" já incluía.

  • Dizem que:"Coração" na Bíblia significa emoção.

    Na antropologia hebraica, o coração é a sede do pensamento e da decisão. fala dos "pensamentos do coração", e Salomão pede um "coração que ouve" para julgar.

  • Dizem que:As listas dividem a pessoa em partes.

    A repetição de "todo" antes de cada termo indica totalidade, não compartimentos. É um modo semítico de dizer "inteiramente", por acumulação de termos que se sobrepõem.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Explicitação do sentido hebraico

    O acréscimo traduz para o grego o que *levav* já continha, seguindo a Septuaginta. É a explicação mais aceita para a variação entre as listas.

  • Acumulação para indicar totalidade

    Os termos se sobrepõem de propósito, e o que carrega o sentido é o "todo" repetido. Complementa a primeira leitura.

No original3 termos
  • לֵבָבlevav

    "Coração". Sede do pensamento, da deliberação e da decisão na antropologia hebraica — não do sentimento, como em português.

  • נֶפֶשׁnefesh

    "Alma, ser vivente". Designa a pessoa inteira, e é usada também para animais em . Não é a parte imaterial oposta ao corpo.

  • מְאֹדmeod

    "Muito, abundância". Traduzido por "força"; targuns aramaicos o interpretam como bens e recursos.

O que fazer com isso

A leitura popular que separa fé e razão em compartimentos não sobrevive bem a este versículo.

O mandamento não distribui: não pede coração para adorar, mente para estudar e força para servir. Ele repete "todo" antes de cada item, e a acumulação existe justamente para impedir a divisão.

Isso corta nos dois sentidos, e vale dizer os dois.

De um lado, alcança quem trata o rigor intelectual como esfriamento espiritual — o entendimento está na lista, com nome próprio.

De outro, alcança quem transforma a fé num exercício exclusivamente intelectual — o coração e a alma estão na mesma lista, e o verbo que governa tudo é amar, não compreender.

O escriba da cena entendeu isso, e a resposta que recebeu foi "não estás longe do reino de Deus". É um elogio incomum nos evangelhos, e foi dado a alguém que raciocinou bem.

Passagens relacionadas6

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Fontes consultadas3 obras
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
  • John Lightfoot. Horae Hebraicae et Talmudicae, 1675.
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que as listas dos evangelhos não coincidem?

Marcos traz quatro termos, Mateus três com entendimento no lugar de força, e Lucas quatro. Como os termos se sobrepõem e a função é indicar totalidade, a variação não altera o sentido — e a Septuaginta já traduzia coração por entendimento.

O que é o Shemá?

A confissão de , recitada duas vezes por dia por judeus observantes. Começa com "ouve, Israel" — *shema*, em hebraico — e é o texto mais central da liturgia judaica.

Por que Jesus acrescentou o segundo mandamento?

A pergunta era sobre o primeiro. Ele liga a e trata os dois como inseparáveis — e leva o argumento adiante: quem não ama o irmão que vê não pode amar a Deus que não vê.

Temas

Publicado em 25/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 3 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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