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Significado Bíblico
Ilustração da categoria Textos eticamente difíceis

O que Levítico 18:22 proíbe, e o que ele não diz

Levítico 18:22 vale para cristãos hoje?

Não te deitarás com homem como com mulher: é abominação.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

O versículo é o texto mais citado do Antigo Testamento nesta discussão, e a maior parte do debate público sobre ele mistura duas perguntas que precisam ser separadas.

A primeira é o que o texto proibia a Israel. A segunda é o que decorre disso para um cristão hoje. Comentaristas que concordam na primeira divergem na segunda, e tratar as duas como uma só é a origem de boa parte da confusão.

Sobre a primeira, o hebraico traz uma expressão incomum — literalmente "as deitadas de mulher" — e a palavra traduzida por abominação tem alcance mais amplo do que o português sugere.

Sobre a segunda, os dois argumentos mais repetidos nos dois lados são mais fracos do que quem os usa costuma admitir. Este verbete mostra por quê.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

A moldura do capítulo é de separação entre Israel e os povos vizinhos, e o Novo Testamento reabre exatamente essa fronteira: e 15 tratam de quais exigências da lei recaem sobre gentios, e a resposta dada não é nem todas nem nenhuma. descreve Cristo abolindo a lei dos mandamentos que separava, e afirma que ele não veio revogar. A tensão entre essas duas afirmações é onde a discussão cristã sobre Levítico realmente se trava.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Em palavras simples

Esse versículo costuma juntar duas perguntas diferentes: o que ele proibia na época de Israel, e o que decorre disso hoje. Sobre a primeira: a palavra usada para "abominação" também descreve balanças falsas ou o costume egípcio de não comer com hebreus — marca o que se considera errado num contexto, não uma categoria única de gravidade máxima.

Sobre a segunda pergunta, os argumentos comuns têm problemas dos dois lados. Dizer "se isso vale, camarão também deveria valer" ignora que o Novo Testamento trata partes diferentes da lei de formas diferentes. E a divisão da lei em "moral, civil e cerimonial" não está no texto — é organização que apareceu bem depois. O texto também não fala de orientação, consentimento ou tipo de relacionamento — categorias que qualquer discussão séria hoje levaria em conta.

Contexto histórico

é uma lista de proibições sexuais, e ela vem emoldurada.

O versículo 3 abre dizendo: não fareis segundo as obras da terra do Egito, onde habitastes, nem segundo as obras da terra de Canaã, para onde vos levo. O capítulo termina, nos versículos 24 a 28, dizendo que a terra vomitou os habitantes anteriores por causa dessas práticas.

A moldura é, portanto, de distinção — Israel deve ser diferente dos dois impérios entre os quais se encontra.

O conteúdo da lista é majoritariamente sobre incesto, versículo por versículo, e inclui ainda relação durante a menstruação, adultério, o sacrifício de filhos a Moloque no versículo 21, e a relação com animais no 23.

O capítulo 20 repete boa parte da lista acrescentando penas, e para este caso a pena é de morte para os dois.

O que a lista não faz, em nenhum ponto, é mencionar mulheres com mulheres. O Antigo Testamento inteiro não trata disso.

Aprofundamento

Comecemos pelo vocabulário, porque duas palavras carregam a discussão.

A primeira é a expressão traduzida por "como com mulher". O hebraico é literalmente algo como "as deitadas de mulher", num plural de construção raro — a mesma forma aparece só mais uma vez no Antigo Testamento, em , sobre Rúben.

A raridade da expressão gerou propostas de leitura restritiva: alguns sustentam que ela designaria um ato específico, ou o contexto de incesto que domina o capítulo. Essas propostas existem na literatura acadêmica e não são majoritárias; a leitura comum entende a frase como referência ao ato sexual entre homens em geral.

A segunda é a palavra traduzida por abominação. Ela é usada no Antigo Testamento para idolatria, para balança falsa em , para retomar a esposa que se casou com outro em — e, em , para o fato de egípcios não comerem com hebreus.

Ou seja: ela marca aquilo que se abomina, e o conteúdo varia com quem abomina e com o assunto. Não é termo técnico só de culto nem só de moral. Quem a usa para provar que a proibição é meramente ritual está forçando; quem a usa para provar gravidade especial também.

Agora a segunda pergunta, que é onde a discussão de fato acontece.

O argumento mais repetido de um lado é o dos camarões: se este versículo vale, por que não valem as regras sobre alimentos, roupas de dois tecidos ou o corte da barba, que estão no mesmo bloco de Levítico?

O argumento mais repetido do outro é a divisão da lei em moral, civil e cerimonial — só a primeira continuaria valendo.

Os dois têm problemas verificáveis.

A divisão tripartite é uma sistematização cristã posterior, formalizada na teologia medieval, e não está marcada no texto. Levítico não separa suas próprias leis assim, e decidir o que é moral e o que é cerimonial exige um critério que vem de fora.

Mas o argumento dos camarões também tropeça, e num dado concreto: o Novo Testamento não trata todas as partes de Levítico do mesmo modo. Ele revoga expressamente as leis alimentares — e —, revoga a circuncisão obrigatória para gentios em e em Gálatas, e no mesmo mantém, entre as poucas exigências feitas aos gentios, a abstenção de imoralidade sexual.

Essa é a razão pela qual o debate cristão sobre este versículo não se resolve em Levítico. Ele se desloca para os textos do Novo Testamento, e é lá que continua.

Dois registros finais de honestidade. O texto não menciona orientação — a categoria não existia no mundo antigo, e discutir se ele a contempla é anacronismo dos dois lados. E o texto não menciona consentimento, exploração ou vínculo, elementos que qualquer discussão ética contemporânea considera relevantes e que a formulação hebraica não distingue.

O que costumam dizer errado3 afirmações
  • Dizem que:A palavra "abominação" indica que a proibição é apenas ritual.

    O termo hebraico é usado para idolatria, para balança falsa em e até para egípcios não comerem com hebreus em . Ele marca o que se abomina, e o conteúdo varia — não é termo técnico de culto.

  • Dizem que:O argumento dos camarões encerra a discussão.

    Ele mostra corretamente que a divisão da lei em moral, civil e cerimonial é sistematização cristã posterior, não marcada no texto. Mas o Novo Testamento trata partes de Levítico de modos diferentes: revoga alimentos em e , e mantém a imoralidade sexual entre as exigências a gentios em .

  • Dizem que:O texto proíbe relações entre mulheres.

    Levítico não menciona mulheres com mulheres em nenhum ponto, e o Antigo Testamento inteiro não trata do assunto. O único texto bíblico que o menciona é .

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Proibição geral do ato entre homens

    Leitura majoritária. Entende a expressão hebraica como referência ao ato sexual entre homens, coerente com a lista de proibições sexuais em que está e com a pena de 20:13.

  • Leitura restritiva pela expressão hebraica

    Propõe que "as deitadas de mulher", forma rara que só reaparece em , designe algo mais específico — um ato determinado ou o contexto de incesto que domina o capítulo. Existe na literatura acadêmica e é minoritária.

No original3 termos
  • מִשְׁכְּבֵי אִשָּׁהmishkevei ishah

    Literalmente "as deitadas de mulher", plural de construção raro. A mesma forma aparece só mais uma vez no Antigo Testamento, em .

  • תּוֹעֵבָהtoevah

    "Abominação". Usada para idolatria, balança falsa, e até para o costume egípcio de não comer com hebreus. Marca o que se abomina; o conteúdo varia com o contexto.

  • זָכָרzachar

    "Macho", "homem". Termo de sexo biológico, o mesmo de — "macho e fêmea os criou".

O que fazer com isso

A utilidade prática deste verbete é de método, e vale para muito além do assunto dele.

Quando alguém cita um versículo de Levítico para decidir uma questão cristã, há uma pergunta anterior que quase nunca é feita: por que este versículo e não o da linha seguinte? A resposta a essa pergunta não está em Levítico, e quem cita raramente a apresenta.

Isso corta para os dois lados. Quem usa o versículo precisa dizer com que critério o separa dos vizinhos. Quem o descarta pelo argumento dos camarões precisa explicar por que o Novo Testamento revoga explicitamente umas partes e mantém outras.

Há também o uso histórico, que é fato e não opinião. Este versículo e os do Novo Testamento sustentaram, por séculos, legislação penal em vários países, incluindo pena capital. Quem o cita hoje está usando um texto com essa biografia, e saber disso não decide a interpretação — mas muda o cuidado com que se fala.

E há o que o texto não resolve. Ele não trata de orientação, de vínculo nem de consentimento. Quem quiser uma posição sobre esses temas terá de construí-la, e não apenas citá-la.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1866.
  • Wilhelm Gesenius. Hebrew and Chaldee Lexicon to the Old Testament Scriptures, 1846.
  • Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Por que este versículo e não os vizinhos sobre tecidos e barba?

É a pergunta certa, e a resposta não está em Levítico. Ela depende de como o Novo Testamento trata cada parte da lei — e ele trata de modos diferentes, revogando expressamente alimentos e circuncisão e mantendo a imoralidade sexual entre as exigências a gentios.

A divisão da lei em moral, civil e cerimonial está na Bíblia?

Não como divisão marcada. É uma sistematização cristã posterior, formalizada na teologia medieval, e decidir o que entra em cada categoria exige um critério trazido de fora do texto.

O texto fala de orientação sexual?

Não. A categoria de orientação é moderna e não existia no mundo antigo. Discutir se o versículo a contempla é anacronismo, e isso vale para os dois lados da discussão.

Temas

Publicado em 31/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 3 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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