
A pena de morte que a lei previu e Israel quase não aplicou
Por que Levítico 20:10 manda matar o adúltero e a adúltera?
E o homem que adulterar com a mulher de outro, o que cometer adultério com a mulher de seu próximo, certamente se condenará à morte o adúltero e a adúltera.
Resposta curta
A lei é curta e categórica: quem adultera com a mulher do próximo, "certamente se condenará à morte o adúltero e a adúltera" — os dois, sem distinção de gênero na pena, o que já contraria a suposição comum de que a lei antiga punia só a mulher.
O desconforto não é pequeno: pena capital para uma conduta que hoje, mesmo entre cristãos convictos de que o adultério é pecado grave, ninguém defende que deva ser crime de estado, muito menos capital. Este verbete não amacia essa distância.
O que ele faz é mostrar dois dados que raramente aparecem juntos: a exigência probatória da própria lei mosaica tornava a execução, na prática, rara — o Antigo Testamento não registra nenhum caso claro de execução judicial por este crime específico — e o episódio mais famoso ligado a este texto, , mostra Jesus diante de uma aplicação seletiva e distorcida exatamente dessa lei.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteA lei exige a morte do adúltero e da adúltera sem exceção declarada; o único episódio evangélico ligado a este texto mostra Jesus recusando aplicar a pena a uma mulher trazida por acusadores que distorciam a própria lei que citavam — sem, no entanto, absolver o pecado ("vai, e não peques mais", ). O contraste não é entre lei severa e evangelho permissivo, mas entre pena capital de estado e um chamado ao arrependimento que não exige a morte do pecador para tratar o pecado como real.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Contexto histórico
é o capítulo de penas que acompanha as proibições de : o 18 lista o que é proibido, o 20 diz a consequência. O capítulo trata, em sequência, de sacrifício de filhos a Moloque (v. 1-5), consulta a médiuns (v. 6), diversas formas de incesto (v. 11-21) e, no meio delas, adultério no versículo 10.
O texto hebraico do versículo repete o verbo duas vezes de forma redundante para ênfase — "matando será morto" — construção usada em hebraico bíblico para marcar certeza absoluta da sentença, não para intensificar a violência do ato. A mesma pena aparece, com formulação semelhante, em , que acrescenta um detalhe processual importante: a lei fala de mulher "casada com marido" (não noiva) surpreendida com outro homem — trata separadamente, com penas diferentes, o caso da noiva.
A exigência probatória para qualquer pena capital em Israel era alta: e 19:15 exigem duas ou três testemunhas oculares, e as testemunhas deviam ser as primeiras a lançar a mão na execução () — um dispositivo que a tradição rabínica posterior leu como desestímulo deliberado a acusações levianas, já que a testemunha assumia responsabilidade pessoal direta pela morte. Flagrante de adultério com duas testemunhas presentes, dispostas a testemunhar sob esse risco, era, na prática, extremamente raro.
Aprofundamento
O ponto mais importante deste texto, e o mais ausente do debate popular sobre ele, é que a lei mosaica não trata a pena de morte como automática de fato, mesmo quando categórica de direito. O padrão probatório de e 19 — duas ou três testemunhas oculares do próprio ato, sob risco pessoal de terem de executar a sentença com as próprias mãos — funcionava como filtro severo. É por isso que o Antigo Testamento, apesar de narrar adultério repetidas vezes (o mais notório sendo o próprio Davi, tratado em verbete separado deste lote), não registra nenhum caso de execução judicial formal por este crime específico. A tradição rabínica posterior chegou a formular a máxima de que um tribunal que executasse alguém uma vez em setenta anos já seria chamado de "sanguinário" — um sinal de que, historicamente, a comunidade judaica leu a severidade da lei escrita como teto declarado, não como prática rotineira esperada.
O episódio mais conhecido ligado a este versículo é , a mulher levada aos pés de Jesus por escribas e fariseus — passagem já tratada em outro verbete do acervo por sua questão textual específica (o texto não aparece nos manuscritos mais antigos de João). O que interessa aqui não é a autenticidade textual, mas o conteúdo da cena: os acusadores citam "a lei de Moisés" (que eles próprios distorcem, já que e exigem punir também o homem, ausente da cena), não trazem duas testemunhas qualificadas ao padrão legal, e usam a mulher como instrumento para armar uma armadilha contra Jesus, não como parte de um processo judicial genuíno. Jesus não declara a lei de Moisés errada; expõe que a aplicação diante dele é ilegítima segundo os próprios critérios daquela lei — "quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro que atire pedra nela" desloca o julgamento para um padrão que nenhum dos presentes atende.
Há ainda um dado de contexto comparativo que vale registrar sem transformar em desculpa: leis assírias médias e o Código de Hamurabi também previam pena capital para adultério, em geral por afogamento do casal, às vezes com opção de perdão pelo marido ofendido — opção ausente na formulação de Levítico, que não deixa a pena a critério pessoal do marido. A severidade da pena, portanto, não era peculiaridade israelita; a rigidez do padrão probatório, sim, na direção de tornar a execução rara.
Isso não resolve o desconforto de fundo: uma lei que autoriza a morte de estado para uma conduta que a ética cristã contemporânea trata, majoritariamente, como pecado grave mas não crime capital. A honestidade exige dizer que a distância entre a lei teocrática de uma nação-estado antiga com Deus como legislador direto e qualquer aplicação penal moderna é real e reconhecida pela própria tradição cristã — nenhuma denominação cristã de peso defende hoje a execução judicial por adultério, e essa unanimidade não é acidente: é leitura de que a função dessa lei era específica de Israel como teocracia sob o Sinai, e não um código penal universal exportável.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A lei só punia a mulher adúltera.
O texto hebraico é explícito e simétrico: "o adúltero e a adúltera" recebem a mesma pena. A leitura de que só a mulher era punida vem de práticas culturais posteriores ou de outras culturas antigas, não deste versículo.
Dizem que:Israel executava adúlteros com regularidade sob esta lei.
O Antigo Testamento não registra nenhum caso de execução judicial formal por este crime. A exigência de duas ou três testemunhas oculares do próprio ato, sob risco pessoal de terem de executar a sentença, tornava a aplicação rara na prática.
Dizem que:Em João 8, Jesus revoga ou contraria Levítico 20:10.
Jesus não declara a lei errada; expõe que a aplicação diante dele era ilegítima pelos próprios critérios dela — os acusadores não trouxeram o homem, exigido pela mesma lei, nem cumpriram o padrão probatório.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Lei teocrática específica de Israel sob o Sinai (majoritária)
Lê a pena como parte do pacto específico entre Deus e a nação-estado de Israel, com função de manter a santidade da aliança conjugal dentro daquele arranjo político-religioso particular, não como código penal universal exportável.
Lei com barra probatória desenhada para raridade de aplicação
Enfatiza que a exigência de duas ou três testemunhas oculares e o risco pessoal assumido por elas funcionavam como filtro deliberado, tornando a severidade declarada mais um teto moral do que uma expectativa de execução rotineira.
No original3 termos
מוֹת יוּמָתmot yumat
"Certamente morrerá" — construção hebraica de infinitivo absoluto repetindo o verbo para ênfase de certeza jurídica da sentença, não intensidade de violência.
נֹאֵףno'ef
"Adúltero". Da mesma raiz de "cometer adultério" (na'af), aplicada nesta lei tanto ao homem quanto à mulher, sem distinção de pena por gênero.
עֵדִים'edim
"Testemunhas". A exigência de duas ou três testemunhas oculares (; 19:15) para qualquer pena capital era o filtro que tornava a execução, na prática, rara.
O que fazer com isso
A lição prática mais segura deste texto está na distância entre o que ele autoriza e o que a comunidade que o recebeu de fato praticava — e no que Jesus faz com ele em .
Quando este versículo é citado hoje para justificar dureza — seja pedindo pena capital moderna, seja apenas para condenar sem misericórdia alguém em situação de adultério —, vale lembrar duas coisas que o próprio texto e sua recepção ensinam: a barra probatória da lei mosaica era altíssima, desenhada para tornar a execução excepcional, não corriqueira; e o único uso registrado do texto por Jesus na narrativa evangélica é para expor a hipocrisia de acusadores seletivos, não para endossar a pedra.
O texto trata o adultério como grave — os dois, sem distinguir por gênero, o que já era incomum no mundo antigo. Isso permanece válido como juízo moral sobre a seriedade da traição conjugal. O que não permanece é o instrumento penal de estado que a lei mosaica escolheu para esse contexto histórico específico.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas4 obras
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1866.
- John Gill. Exposition of the Entire Bible, 1748.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown. A Commentary, Critical and Explanatory, on the Whole Bible, 1871.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Existe algum caso na Bíblia de execução por adultério conforme esta lei?
Não há registro de execução judicial formal por este crime específico no Antigo Testamento, apesar de o adultério ser narrado várias vezes — inclusive o de Davi, tratado em verbete separado.
Este texto e João 8:3-11 são sobre a mesma coisa?
encena uma tentativa de aplicar esta lei, mas de forma distorcida: falta o homem, exigido pela mesma lei, e falta o padrão probatório. Este verbete trata da lei em si; o episódio de João tem verbete próprio dedicado à questão textual do relato.
Cristãos hoje devem defender pena de morte para adultério?
Nenhuma tradição cristã de peso defende isso. A leitura predominante é que a pena fazia parte do arranjo teocrático específico de Israel sob o Sinai, não um código penal universal para qualquer sociedade.
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