
Deus se arrependeu de ter criado o ser humano?
Como Deus pode se arrepender se ele não muda?
E o SENHOR viu que a maldade dos seres humanos era muita na terra, e que todo desígnio dos pensamentos dos seus corações era só mau continuamente. E o SENHOR se arrependeu de haver feito o ser humano na terra, e pesou-lhe em seu coração. E disse o SENHOR: Apagarei os seres humanos que criei de sobre a face da terra, desde o ser humano até o animal, e até o réptil e as aves do céu; porque me arrependo de havê-los feito.
Resposta curta
A tensão é real e a própria Bíblia a coloca: diz que Deus “não é filho de homem para se arrepender”, e usa o mesmo verbo duas vezes no mesmo capítulo — uma dizendo que Deus se arrependeu de ter feito Saul rei, outra dizendo que Deus não se arrepende.
Quem escreveu isso não estava distraído. O verbo hebraico *nacham* não significa “admitir que errei”; significa sentir pesar profundo e, a partir disso, mudar de curso. A palavra portuguesa “arrependimento” carrega uma confissão de erro que o hebraico não carrega — e é nessa diferença que a contradição aparente nasce.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO padrão inaugurado aqui — juízo universal com um resgate dentro dele — percorre a Escritura inteira e é aplicado a Cristo diretamente. Pedro compara o batismo à arca, e o próprio Jesus compara os dias de Noé à sua vinda. E o pesar de Deus diante do pecado, que aqui aparece como emoção narrada de longe, ganha rosto no Evangelho: Jesus chora diante de Jerusalém e se comove diante do túmulo de um amigo.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
A palavra usada aqui não significa "admitir que errou". Significa sentir uma dor profunda e, por causa dela, mudar de rumo. É esse o sentido também num texto que parece dizer o contrário — que Deus "não se arrepende" —, porque ali a ideia é outra: ele não volta atrás numa promessa nem mente. As duas frases falam de coisas diferentes.
O texto é duro e consolador ao mesmo tempo. Duro, porque mostra que o mal humano dói em Deus de verdade. Consolador, pela mesma razão: um Deus que se importa a esse ponto é um Deus para quem o que você faz tem peso. E logo depois desse anúncio de julgamento severo, um nome escapa: alguém encontra graça. O juízo nunca vem sem uma porta aberta.
Contexto histórico
O versículo 6 não vem sozinho. Ele está preso ao 5, que descreve a situação: “todo desígnio dos pensamentos dos seus corações era só mau continuamente”. É a descrição mais dura do ser humano em toda a Bíblia hebraica, e ela vem antes da reação de Deus, não depois.
O capítulo 6 abre a narrativa do dilúvio, que é estruturada como um desfazer da criação: as águas de cima e de baixo, separadas em , voltam a se juntar. O texto está dizendo que a violência humana desfez a ordem, e que Deus responde a isso.
Há ainda um detalhe de construção que se perde na tradução e explica muito. O nome “Noé” e o verbo “se arrependeu” compartilham raiz consonantal em hebraico — *noḥ* e *naḥam*. O narrador está fazendo um trocadilho: no meio do pesar de Deus aparece o homem cujo nome soa como esse pesar, e o versículo 8 fecha com “mas Noé achou graça aos olhos do SENHOR”. O jogo de palavras é a maneira do autor de dizer que o juízo nunca vem sem uma porta aberta.
Aprofundamento
*Nacham* cobre um campo mais largo do que qualquer palavra portuguesa única: sentir pesar, consolar-se, lamentar, mudar de disposição. A mesma raiz gera “consolar” — é dela que vem o nome do profeta Naum, “consolo”. Traduzir sempre por “arrepender-se” obriga o leitor a importar a ideia de culpa que o português coloca na palavra.
O caso decisivo é . No versículo 11, Deus diz “me arrependo de ter constituído a Saul por rei”. No versículo 29, o profeta Samuel diz que Deus “não mente nem se arrepende, porque não é homem para se arrepender”. E no versículo 35, o narrador repete que Deus se arrependeu. Três usos, mesmo verbo, mesmo capítulo. Nenhum editor antigo achou que houvesse aí um problema a resolver — o que sugere fortemente que os dois usos não competiam entre si na cabeça de quem escreveu.
A saída clássica é distinguir o que Deus é do que Deus faz. O caráter não muda; a ação responde à mudança de quem está diante dele. diz isso de forma explícita na figura do oleiro: se a nação anunciada para juízo se converter, Deus “se arrependerá do mal” — e se a anunciada para bênção fizer o contrário, o mesmo acontece ao inverso. A constância está justamente na regra, não na sentença.
Jonas é o caso narrativo dessa regra. Nínive se converte e o anúncio não se cumpre. Jonas fica furioso e revela, no capítulo 4, que era exatamente isso que ele temia — sabia que Deus é “que se arrepende do mal”. O profeta não acusa Deus de incoerência; acusa-o de ser previsivelmente misericordioso.
O “pesou-lhe em seu coração”, no fim do versículo 6, acrescenta um segundo verbo, *atsav*, que é dor — a mesma raiz da dor anunciada a Adão e Eva no capítulo 3. O texto não retrata um administrador revendo um projeto. Retrata alguém ferido pelo que fez o que ama.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O versículo prova que Deus errou ao criar o ser humano.
O verbo *nacham* não admite erro — ele descreve pesar e mudança de curso. Errar exigiria informação nova, e o texto não apresenta nenhuma: o versículo 5 diz que Deus “viu” o que já estava lá. Além disso, quem lê assim precisa explicar por que o mesmo autor não achou necessário suavizar nada.
Dizem que:A Bíblia se contradiz: aqui Deus se arrepende, em Números 23:19 ele não se arrepende.
As duas frases usam o mesmo verbo para coisas diferentes, e o texto que as coloca lado a lado é o mesmo que as escreveu. está negando que Deus minta ou volte atrás numa promessa — o contexto é Balaão sendo pago para amaldiçoar Israel e não conseguindo. descreve pesar diante do mal. Negar volubilidade não é negar emoção.
Dizem que:É só linguagem figurada, Deus não sente nada disso.
Dizer “é só figura” resolve rápido demais e custa caro. A tradição cristã chama isso de antropopatismo — linguagem humana para o que está além dela —, mas antropopatismo não significa que nada corresponde à palavra. Significa que a correspondência é real e a descrição é acomodada ao que conseguimos entender. Esvaziar a linguagem por completo tornaria ilegível também “Deus é amor”.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura de acomodação (majoritária)
Deus é descrito em termos humanos porque não há outros disponíveis. A mudança está na relação e na ação, não no caráter nem no conhecimento. É a leitura de Agostinho, de Calvino e da maior parte da tradição reformada e católica.
Leitura relacional
Deus se comprometeu de verdade com criaturas livres, e um compromisso real inclui responder ao que elas fazem. A mudança de curso não é aparência: é a consequência de um relacionamento genuíno. Comum entre arminianos e em boa parte da teologia narrativa contemporânea.
Leitura do teísmo aberto
Corrente minoritária e recente que leva o versículo mais longe, sustentando que o futuro livre não é objeto de conhecimento prévio nem para Deus. É rejeitada pela maioria das tradições históricas, e está aqui por honestidade de mapa: ela existe e é defendida por gente séria, mas está longe de ser a leitura corrente.
No original3 termos
נָחַםnaḥamH5162
Sentir pesar profundo, lamentar, consolar-se, mudar de disposição. A mesma raiz de “consolo” — e do nome do profeta Naum. Não carrega a ideia de admitir erro que o português põe em “arrepender-se”.
עָצַבʿatsavH6087
Doer, entristecer, magoar. É dor, e não contrariedade administrativa. A mesma raiz da dor anunciada em .
נֹחַnōḥH5146
Noé. Compartilha as consoantes com *naḥam*; o narrador usa a semelhança para ligar o pesar de Deus ao homem que acha graça dois versículos adiante.
O que fazer com isso
O texto é mais duro e mais consolador do que a discussão gramatical deixa ver. Duro, porque diz que a maldade humana não é indiferente a Deus — ela dói nele. Consolador, pela mesma razão: um Deus que sente pesar é um Deus para quem o que você faz importa de verdade.
E há o versículo 8, que quase nunca é lido junto: no meio da sentença mais ampla do Antigo Testamento, um nome escapa. O juízo nunca aparece sem uma porta.
Passagens relacionadas7
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- John Gill. Exposition of the Old and New Testaments, 1748.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Deus muda de ideia, então?
Depende do que se chama de ideia. A Escritura afirma que o caráter e as promessas de Deus não mudam, e ao mesmo tempo narra Deus respondendo ao que as pessoas fazem. apresenta isso como regra declarada, não como exceção: o anúncio de juízo pode ser revogado pelo arrependimento, e o de bênção pela rebeldia.
Por que a tradução usa “arrependeu” se a palavra não significa isso?
Porque não existe equivalente exato em português. Algumas traduções usam “pesou-lhe” ou “lamentou”, que resolvem este versículo e criam problema em outros, onde o sentido de mudança de curso é o dominante. Toda escolha aqui perde alguma coisa.
Se Deus sabia que aconteceria, por que sentir pesar?
Saber de antemão não anestesia. Um pai que prevê a queda do filho não sofre menos quando ela chega — e o texto atribui a Deus exatamente esse tipo de dor, reforçada pelo segundo verbo, que é de ferida e não de contrariedade.
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