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Significado Bíblico
Parábolasintermediária
Ilustração da categoria Parábolas

Cinquenta e quinhentas: a dívida maior ama mais quem perdoa

O que significa a parábola dos dois devedores em Lucas 7?

Jesus disse: “Certo credor tinha dois devedores. Um lhe devia quinhentas moedas de prata, e o outro cinquenta. Como não tinham com que pagar, perdoou-lhes a dívida de ambos. Dize, pois, qual deles o amará mais?” Simão respondeu: Tenho para mim que aquele a quem mais perdoou. E ele lhe disse: Julgaste corretamente.

· Bíblia Livre (Textus Receptus)

Resposta curta

A parábola é curtíssima — três versículos, uma pergunta e uma resposta — e vem no meio de uma cena tensa: Jesus está reclinado à mesa na casa de Simão, um fariseu, quando uma mulher conhecida como pecadora entra, chora sobre os pés dele, os enxuga com os cabelos e os unge com perfume. Simão pensa, sem dizer em voz alta, que se Jesus fosse mesmo profeta saberia que tipo de mulher o está tocando.

Jesus responde ao pensamento não verbalizado com uma história: um credor tinha dois devedores, um devendo dez vezes mais que o outro, e perdoou a dívida dos dois porque nenhum tinha como pagar. A pergunta que fecha a parábola é dirigida diretamente a Simão — "qual deles o amará mais?" — e a resposta dele, ainda que hesitante ("tenho para mim que aquele a quem mais perdoou"), é usada por Jesus para expor, com precisão cirúrgica, o contraste entre a hospitalidade fria de Simão e a devoção extravagante da mulher.

Como isso aponta para Jesus

Ligação indireta

A parábola não é profecia messiânica direta, mas sua lógica de graça — perdão gratuito concedido a quem não tem como pagar, gerando amor como resposta — é o mesmo padrão que o Novo Testamento articula teologicamente sobre a obra de Cristo: "mas Deus prova seu amor para conosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores" (), e "nós o amamos a ele, porque ele nos amou primeiro" () usa a mesma estrutura de prioridade que Jesus estabelece aqui — o amor humano como resposta ao amor e ao perdão divinos recebidos primeiro, não como condição prévia para merecê-los.

Respaldo no Novo Testamento: ; ;

Contexto histórico

O episódio ocorre num jantar formal na casa de um fariseu chamado Simão, que convidou Jesus — um gesto de hospitalidade que, no entanto, o restante da cena revela ter sido incompleto segundo os próprios padrões de cortesia do período: Jesus, mais tarde, lista o que Simão deixou de oferecer — água para os pés, ósculo de saudação, óleo para a cabeça — cuidados costumeiros para um convidado de honra.

A mulher que interrompe o jantar é descrita apenas como "uma mulher da cidade, que era pecadora" (7:37) — o texto não especifica a natureza do pecado, e a tradição popular que a identifica com prostituição, ou mesmo com Maria Madalena, não tem apoio direto no texto grego; é conflação posterior, comum na tradição ocidental, mas não afirmação do próprio Lucas.

O gesto dela é de extrema vulnerabilidade social e ritual: entrar sem convite num jantar de homens, chorar a ponto de molhar os pés de Jesus com lágrimas, soltar os cabelos em público (gesto associado, no período, a impropriedade) para enxugá-los, e beijar repetidamente os pés dele enquanto os unge com perfume caro. Cada elemento do gesto seria lido, por qualquer convidado do jantar, como transgressão de decoro social.

Simão observa tudo e conclui, em pensamento silencioso registrado pelo texto ("dizia consigo mesmo"), que Jesus, se realmente fosse profeta, saberia "quem e qual é a mulher que o toca, que é pecadora" — implicando que um profeta genuíno rejeitaria o contato. É exatamente esse pensamento não verbalizado que Jesus responde: "Simão, uma coisa tenho a dizer-te" — demonstrando, aliás, conhecimento do próprio pensamento interior de Simão, o que ironicamente confirma a percepção profética que Simão duvidava.

Aprofundamento

A estrutura da parábola é deliberadamente simples e matemática: dois devedores, um devendo quinhentas moedas de prata, o outro cinquenta — uma proporção de dez para um —, e "como não tinham com que pagar, perdoou-lhes a dívida de ambos" (7:42). A unidade monetária que o texto usa aqui, traduzida como "moedas de prata", corresponde ao denário romano, salário aproximado de um dia de trabalho comum no período — o que dá à dívida maior a escala de quase um ano e meio de trabalho, e à menor, cerca de dois meses. A diferença não é sutil; é dez vezes.

A pergunta de Jesus — "qual deles o amará mais?" — é armadilha retórica no melhor sentido: ela não pede a Simão que avalie moralmente os dois devedores (nenhum dos dois pagou nada; ambos foram igualmente incapazes), pede que ele preveja uma resposta emocional a um ato de graça recebido. A resposta de Simão, hesitante mas correta — "suponho que aquele a quem mais perdoou" —, é confirmada por Jesus: "julgaste corretamente" (7:43).

O ponto que a parábola prepara, e que os versículos seguintes (7:44-47, fora do range ancorado aqui, mas indispensáveis para entender a aplicação) tornam explícito, é uma inversão do julgamento inicial de Simão: não é que a mulher ame muito e por isso seja perdoada; é que ela ama muito porque já foi perdoada de muito. Jesus declara isso diretamente no versículo 47: "por isso te digo que os muitos pecados que ela tinha lhe são perdoados, porque muito amou; mas ao a quem pouco se perdoa, pouco ama" — o amor dela é resposta ao perdão recebido, não condição para merecê-lo.

É um ponto teológico preciso que merece ser dito sem ambiguidade, porque a ordem das palavras no versículo 47 pode confundir uma leitura apressada: a estrutura da própria parábola, com os dois devedores perdoados antes de qualquer menção a amor da parte deles, deixa claro que o perdão vem primeiro e o amor é a resposta a ele — não o contrário. Se o amor fosse condição prévia para o perdão, a parábola teria descrito os devedores fazendo algo para merecer a dívida cancelada; em vez disso, ela é explícita: "como não tinham com que pagar, perdoou-lhes." O perdão, na parábola, é gratuito por definição — nenhum dos dois devedores tinha recurso próprio para saldar a dívida, grande ou pequena.

Isso lança luz também sobre o que a parábola implica, sem dizer diretamente, sobre Simão: ele não é descrito como isento de dívida — ele é, na lógica da própria parábola que ele acabou de validar com sua resposta, o devedor de cinquenta, não alguém fora do sistema de dívida. O erro de Simão não é ter pecado menos que a mulher (a parábola não afirma isso com certeza — ela apenas ilustra o princípio com uma proporção hipotética de dez para um); o erro dele é hospitalidade fria diante de alguém que ele trata como indigno de estar perto de Jesus, enquanto ele mesmo, hospedeiro, ofereceu o mínimo de cortesia esperada.

O episódio inteiro, portanto, não é primariamente sobre a mulher (embora ela seja a figura central de devoção do relato) — é sobre o próprio Simão, e a parábola é a ferramenta cirúrgica usada para levá-lo a pronunciar, com a própria boca, o princípio que condena sua atitude antes que ele perceba que está fazendo isso.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:A mulher pecadora da cena é identificada no texto como prostituta ou como Maria Madalena.

    O texto grego apenas a descreve como "pecadora", sem especificar a natureza do pecado, e não a nomeia. A identificação com prostituição, e sobretudo com Maria Madalena, é conflação da tradição ocidental posterior, sem apoio direto no relato de Lucas.

  • Dizem que:A parábola ensina que amar mais é o que provoca o perdão maior.

    É o inverso: a estrutura da parábola tem o perdão vindo primeiro, sem nenhuma menção a mérito ou amor prévio dos devedores — "como não tinham com que pagar, perdoou-lhes" — e o próprio Jesus declara depois, no versículo 47, que o amor maior da mulher é resultado, não causa, do perdão que ela já recebeu.

Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Foco no perdão como prioridade lógica e temporal sobre o amor

    Leitura predominante nas tradições que enfatizam a graça como iniciativa divina anterior a qualquer resposta humana: a estrutura da parábola, com o perdão concedido antes de qualquer menção a mérito dos devedores, é lida como retrato direto da graça que precede e gera a resposta de fé e amor.

  • Ênfase na resposta de devoção como sinal visível da experiência de graça recebida

    Presente em leituras que, sem inverter a ordem lógica estabelecida pelo texto, acentuam o papel do gesto extravagante da mulher como modelo positivo de resposta esperada à graça — contrastando com a religiosidade formal e insuficiente de Simão.

No original3 termos
  • δηνάριαdenaria

    "Denários" — moedas de prata romanas, cada uma correspondendo aproximadamente ao salário de um dia de trabalho comum no período. A proporção de quinhentos para cinquenta marca uma diferença de escala de dez vezes entre as duas dívidas.

  • χαρίζομαιcharizomai

    "Perdoar", "conceder graciosamente". A mesma raiz de "charis" (graça); o verbo enfatiza que a quitação da dívida é ato gracioso do credor, não resultado de qualquer capacidade dos devedores.

  • ὀρθῶς ἔκριναςorthos ekrinas

    "Julgaste corretamente" (7:43). A confirmação de Jesus à resposta hesitante de Simão, usada em seguida para expor, pelas próprias palavras dele, o contraste com sua atitude para com a mulher.

O que fazer com isso

A inversão de causa e efeito que a parábola estabelece — perdão primeiro, amor depois, como resposta — é a lição mais aplicável e mais frequentemente invertida na prática religiosa: é fácil tratar devoção intensa como condição para merecer graça, quando a própria estrutura desta parábola descreve o oposto. Os dois devedores não fizeram nada para merecer o perdão; a incapacidade de pagar é justamente o que ambos tinham em comum.

Há também uma advertência específica contra o erro de Simão, que não é hostilidade aberta, mas frieza educada: ele convidou Jesus, mas não ofereceu os cuidados costumeiros de hospitalidade; ele não expulsou a mulher, mas a julgou em silêncio, presumindo que sua presença desqualificava a legitimidade profética de Jesus. É um erro sutil, mais fácil de cometer sem perceber do que a rejeição explícita, e a parábola o expõe justamente por isso — usando a própria capacidade de Simão de reconhecer o princípio ("aquele a quem mais perdoou") para revelar que ele não o estava aplicando a si mesmo.

O detalhe de que a dívida menor também precisou ser perdoada — não apenas a maior — evita um erro de leitura comum: ninguém na parábola está isento de dívida. A diferença é de grau, não de categoria. Isso nivela, mais do que separa, os dois devedores e, por extensão, Simão e a mulher.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
  • Marvin Vincent. Word Studies in the New Testament, 1887.
  • Alfred Edersheim. The Life and Times of Jesus the Messiah, 1883.
  • Robert Jamieson, A. R. Fausset e David Brown. A Commentary, Critical and Explanatory, on the Whole Bible, 1871.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Quem era a mulher que ungiu os pés de Jesus?

O texto a identifica apenas como "uma mulher da cidade, que era pecadora", sem especificar o pecado nem nomeá-la. A tradição que a associa a prostituição ou a Maria Madalena não tem apoio direto no relato de Lucas — é conflação posterior.

O amor maior da mulher é o que a fez merecer mais perdão?

Não, é o inverso. A parábola descreve o perdão sendo concedido a ambos os devedores sem qualquer menção a mérito prévio, e Jesus declara explicitamente no versículo 47 que o amor maior da mulher é resposta ao perdão já recebido, não a causa dele.

Por que Jesus conta essa parábola especificamente a Simão?

Porque Simão julgou, em pensamento silencioso, que Jesus não deveria permitir o toque de uma pecadora. A parábola é resposta direta a esse julgamento não verbalizado, usando a própria capacidade de Simão de reconhecer o princípio da gratidão proporcional para expor, pela boca dele mesmo, sua hospitalidade fria diante da devoção extravagante da mulher.

Temas

Publicado em 07/09/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • Citação conferida contra o texto de Bíblia Livre (Textus Receptus)
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 2 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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