
A parábola da figueira termina sem dizer o que aconteceu
O que significa a parábola da figueira estéril?
E dizia esta parábola: Um certo homem tinha uma figueira plantada em sua vinha, e veio até ela para buscar fruto, e não achou. E disse ao que cuidava da vinha: Eis que há três anos, que venho para buscar fruto nesta figueira, e não o acho; corta-a; por que ainda ocupa inutilmente a terra? E respondendo ele, disse-lhe: Senhor, deixa-a ainda este ano, até que eu a escave ao redor, e a adube; E se der fruto, deixa-a ficar; se não, tu a cortarás depois.
Resposta curta
A parábola não tem desfecho. O vinhateiro pede mais um ano, propõe cavar e adubar, e o texto termina ali — sem informar se o dono aceitou, e sem dizer se a figueira deu fruto.
Esse silêncio não é descuido. Ele é a única parábola dos evangelhos que fica em suspenso desse jeito, e o efeito é jogar a conclusão para fora da história.
O contexto explica a escolha. Nos cinco versículos anteriores, Jesus acabou de recusar duas vezes a lógica de que a desgraça mede a culpa: os galileus mortos por Pilatos e os dezoito esmagados pela torre de Siloé não eram piores que os outros.
A parábola vem logo depois dessa recusa. Ela não explica por que a árvore não deu fruto — trata do prazo, não da causa.
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaA tradição cristã lê o vinhateiro que intercede e propõe trabalhar mais um ano como figura de Cristo, e essa leitura tem apoio em , que o descreve vivendo sempre para interceder. Convém a ressalva de que alegorizar o dono como o Pai opõe um ao outro em paciência, o que parte dos comentaristas evita. O que o texto sustenta com segurança é a figura da intercessão que compra tempo.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Essa parábola termina sem final: o jardineiro pede mais um ano para cuidar da figueira que não dá fruto, e o texto para ali, sem dizer se ela foi cortada ou se deu fruto depois. O silêncio parece proposital — é a única parábola dos evangelhos que fica assim, em suspenso.
Ela vem logo depois de Jesus recusar, duas vezes, a ideia de que uma desgraça é castigo proporcional à culpa de alguém. Por isso, essa história não serve para explicar por que algo ruim aconteceu com uma pessoa — fala de prazo e cuidado, não de causa. O jardineiro não nega que a árvore não produziu; pede tempo e se propõe a trabalhar a terra.
Contexto histórico
abre com pessoas trazendo a Jesus a notícia de um massacre: Pilatos misturou o sangue de galileus com os sacrifícios deles.
A pergunta implícita é a de sempre — eram piores? Jesus responde que não, e acrescenta um segundo caso, o da torre de Siloé que caiu sobre dezoito pessoas. Nega de novo.
Mas ele não encerra tranquilizando. As duas negativas terminam com a mesma frase: se não vos arrependerdes, todos perecereis igualmente.
É nesse ponto que a parábola entra.
O detalhe agrícola tem apoio na lei. determina que o fruto das árvores plantadas não seja comido nos três primeiros anos, e que o do quarto seja consagrado. Os três anos de espera do dono, portanto, começam depois do período em que já não se esperaria fruto.
Figueira plantada em vinha era prática atestada de plantio consorciado, e a figueira ocupava espaço e água que a videira usaria.
Aprofundamento
A parábola tem três personagens e uma ausência.
O dono chega esperando fruto pelo terceiro ano e manda cortar. O argumento dele é econômico e correto: a árvore ocupa terra inutilmente.
O vinhateiro pede prazo e propõe trabalho — cavar ao redor e adubar. Ele não discorda do diagnóstico; discorda do calendário.
A ausência é a resposta. O texto não registra o que o dono decidiu.
Esse silêncio é o dado mais interpretado da parábola, e vale registrar as leituras sem escolher por decreto.
A leitura mais comum entende o silêncio como convite: quem ouve é a figueira, e o desfecho depende do que acontecer no prazo concedido. Ela combina com a frase repetida nos versículos 3 e 5 — se não vos arrependerdes.
Uma segunda leitura, mais atenta à identificação dos personagens, hesita em ver no dono a figura do Pai e no vinhateiro a de Cristo, porque isso opõe um ao outro em paciência. Comentaristas que evitam essa alegorização leem os dois como aspectos de uma mesma decisão, e o diálogo como recurso narrativo.
Uma terceira lê a figueira como Israel, apoiada em textos proféticos que usam a imagem — , — e no episódio da figueira amaldiçoada, em . Aqui é preciso ser exato: as duas cenas são diferentes. Em Marcos a árvore seca; aqui não se sabe o que aconteceu com ela.
Sobre o vocabulário, o pedido do vinhateiro usa um verbo de escavar que descreve trabalho pesado de soltar a terra em volta das raízes. Ele não propõe esperar mais um ano: propõe intervir mais um ano.
E há um contraste com o contexto que vale notar. Os dois episódios anteriores tratam de morte súbita, sem aviso. A parábola trata do oposto: uma situação em que houve três anos de aviso e mais um foi concedido.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A figueira foi cortada no fim da parábola.
O texto termina no pedido do vinhateiro e não registra a decisão do dono nem o destino da árvore. É a única parábola dos evangelhos que fica assim em suspenso.
Dizem que:É a mesma cena da figueira que Jesus amaldiçoou.
São episódios distintos. Em a árvore seca diante dos discípulos; aqui não se sabe o que aconteceu com ela, e o gênero é outro — parábola, não sinal encenado.
Dizem que:A parábola explica por que acontecem desgraças.
Ela vem logo depois de Jesus recusar duas vezes essa lógica, nos casos dos galileus mortos por Pilatos e da torre de Siloé. A parábola trata de prazo, não de causa.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Convite dentro de um prazo concedido
Lê o silêncio final como deliberado: o desfecho depende do que acontecer no tempo dado. Combina com a frase repetida nos versículos 3 e 5.
Figueira como Israel
Apoia-se em textos proféticos que usam a imagem, como e . Precisa manter a distinção em relação ao episódio de , onde a árvore seca.
No original3 termos
σκάψωskapso
"Cavarei". Descreve trabalho pesado de soltar a terra ao redor das raízes. O vinhateiro não propõe esperar mais um ano — propõe intervir mais um ano.
καταργεῖkatargei
"Ocupa inutilmente", literalmente torna sem efeito. O argumento do dono é econômico, e a parábola não o contesta.
εἰς τὸ μέλλονeis to mellon
"Para o futuro", na condição do versículo 9. A frase fica sem resposta, e é essa suspensão que a parábola quer.
O que fazer com isso
A parábola trata de prazo, e é honesta sobre as duas pontas do assunto.
De um lado, ela não é ameaça. O prazo é dado, o trabalho é proposto, e a história não registra corte nenhum.
De outro, ela não é garantia. O dono tem razão no diagnóstico, e o vinhateiro não a contesta — pede tempo, não absolvição.
O que ela remove com clareza é a leitura que o contexto acabou de negar duas vezes: a de que a desgraça mede a culpa. Quem procura nesta parábola uma explicação para o que aconteceu com alguém está pedindo a ela o que Jesus recusou dar cinco versículos antes.
Há também algo no personagem que intercede. Ele não pede só prazo; oferece trabalho. É a única proposta concreta da história, e ela envolve mexer na terra em volta das raízes — a parte que não aparece.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Frédéric Louis Godet. A Commentary on the Gospel of St. Luke, 1875.
- Richard Chenevix Trench. Notes on the Parables of Our Lord, 1841.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que a parábola não tem fim?
O silêncio é lido pela maioria como deliberado: ele joga a conclusão para fora da história, para quem está ouvindo. É a única parábola dos evangelhos construída assim.
Por que três anos?
manda não comer o fruto das árvores nos três primeiros anos e consagrar o do quarto. Os três anos de espera do dono começam, portanto, depois do período em que já não se esperaria fruto.
O dono representa Deus Pai?
Parte da tradição lê assim, com o vinhateiro como figura de Cristo. Outros comentaristas evitam essa alegorização porque ela opõe Pai e Filho em paciência, e leem o diálogo como recurso narrativo.
Temas
- Juízo
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