Pular para o conteúdo
Significado Bíblico
Dicionário bíblicohebraicoavançada

O que significa cherem na Bíblia?

O que significa "cherem" na Bíblia e por que Deus mandava destruir cidades inteiras?

A palavra no original

חֵרֶם

cherem · Strong H2764

coisa separada, banida ou devotada de forma irrevogável — para destruição total ou para uso exclusivo do santuário

Tudo isto ao mesmo tempo

  • destruição total dedicada a Deus (extermínio de guerra santa)
  • consagração irrevogável e sem resgate ao santuário
  • interdição do que é contaminante ou perigoso, retirado do uso comum
  • julgamento que recai sobre quem viola o que foi declarado cherem
  • banimento formal de uma pessoa da comunidade (uso pós-bíblico)

Resposta curta

Cherem (חֵרֶם) é a palavra hebraica para algo formalmente separado do uso comum e entregue a Deus de modo irreversível — seja para ser totalmente destruído, seja para se tornar propriedade exclusiva do santuário. A raiz hrm carrega a ideia de "banir, isolar, tornar intocável": uma vez declarada cherem, uma coisa ou uma cidade sai definitivamente da circulação humana normal.

Nos relatos de guerra de Josué e Deuteronômio, cherem significa extermínio dedicado — cidades cananeias e seus bens são entregues à destruição como parte de um voto ou ordem divina. Em Levítico, o mesmo termo descreve campos, animais ou pessoas consagrados ao santuário sem possibilidade de resgate. É essa dupla face — aniquilação ou consagração absoluta, sem volta — que torna cherem um dos termos mais tensos do vocabulário bíblico, e que a Septuaginta verteu para o grego como anátema.

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

Nos relatos de guerra e no voto de , cherem é a categoria mais extrema que a Bíblia reconhece: uma coisa ou pessoa que se torna, sem volta, objeto do juízo total de Deus. O padrão se inverte de modo decisivo no Novo Testamento: Paulo escreve que Cristo "nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós" () — a mesma tradição grega que usa anáthema para traduzir cherem no Antigo Testamento aplica a Cristo, no Novo Testamento, a lógica oposta: em vez de o culpado (como as cidades cananeias, ou Acã) sofrer sozinho a destruição que sua contaminação merecia, é o inocente que assume o lugar do juízo total, para que outros sejam liberados dele. É uma leitura teológica de continuidade temática — não uma citação direta do termo cherem — mas apoiada explicitamente pelo próprio Paulo, inclusive quando ele mesmo se diz disposto a ser "anátema" por seus irmãos ().

Respaldo no Novo Testamento:

De onde vem a palavra

A raiz consonantal h-r-m aparece em várias línguas semíticas aparentadas ao hebraico, sempre com o sentido básico de "separar algo do uso comum, tornando-o intocável". No árabe, a mesma raiz sobrevive em haram ("proibido, sagrado") e em harim ("recinto vedado, reservado"), o que ajuda a entender a lógica por trás da palavra: cherem não é primariamente sobre violência, mas sobre exclusividade — algo que sai da esfera do cotidiano e passa para uma esfera à parte, seja a esfera do sagrado, seja a do banido.

Fora de Israel, o conceito de dedicar cidades e despojos de guerra a uma divindade era conhecido em outros povos do antigo Oriente Próximo; a inscrição moabita da Estela de Mesa, do século IX a.C., usa um termo aparentado (hrm) para descrever a destruição de uma cidade israelita "para Astar-Camos", mostrando que a prática de consagrar uma conquista à destruição total não era exclusiva de Israel.

Quando os tradutores gregos da Septuaginta verteram o Antigo Testamento, escolheram anáthema para cherem — palavra que originalmente significava apenas "coisa colocada à parte, oferenda". Foi esse uso bíblico que deu ao termo grego o peso de "maldição, coisa banida", sentido que passou ao Novo Testamento e, mais tarde, ao vocabulário eclesiástico e jurídico ocidental, onde "anátema" passou a designar a excomunhão formal de uma pessoa.

Dentro do próprio hebraico bíblico, o termo evoluiu depois em direção semelhante: no hebraico rabínico e no hebraico moderno, cherem designa o banimento formal de uma pessoa da comunidade — um uso já distante do sentido bélico e cultual original, mas que preserva a ideia-mãe de "separação sem volta". Compreender essa origem ajuda a explicar por que o texto bíblico trata cherem como categoria jurídica e cúltica, e não como simples xingamento ou maldição mágica: é um ato formal, declarado, com consequências específicas para quem o descumprisse.

Aprofundamento

No vocabulário bíblico, cherem funciona em dois campos que parecem opostos, mas obedecem à mesma lógica jurídica: tirar algo definitivamente da posse humana comum. No campo da guerra, e 20:16-18 ordenam que certas cidades cananeias sejam postas sob cherem — população e bens destruídos por completo, sem pilhagem pessoal, precisamente para que Israel não fosse contaminado pelas práticas religiosas locais. aplica isso a Jericó: tudo na cidade pertence a esse voto de destruição, com exceção dos metais preciosos, que vão para o tesouro do santuário. O episódio seguinte, em , mostra a gravidade da categoria: Acã esconde parte do despojo de Jericó para uso próprio, e o texto trata isso não como simples furto, mas como profanação que compromete toda a comunidade até ser resolvida.

No campo cultual, usa cherem em sentido quase inverso: um campo, um animal ou uma pessoa podem ser "devotados" ao Senhor de forma tão absoluta que — ao contrário de outros votos do capítulo, que podiam ser resgatados com dinheiro — o que é cherem não tem resgate possível. É a forma mais radical de consagração que a lei israelita reconhece, mais definitiva até que o dízimo ou a oferta comum.

Comentaristas como Keil e Delitzsch, em seu comentário sobre Josué, notam que a raiz da palavra explica essa dupla aplicação: o que está "sob cherem" simplesmente deixou de pertencer à esfera comum, e o destino — destruição ou consagração — depende do contexto, não do significado da palavra em si. Gordon Wenham, em seu comentário sobre Levítico, observa que o cherem do capítulo 27 era reconhecidamente um voto extremo, raramente pronunciado, porque retirava de forma permanente uma pessoa ou bem de qualquer uso futuro, inclusive do próprio doador.

Os textos de guerra levantam uma discussão séria entre estudiosos: se a linguagem de "destruir tudo o que respira" deve ser lida de modo literal e absoluto ou se reflete a retórica hiperbólica comum aos relatos de conquista do antigo Oriente Próximo — um gênero em que "aniquilar totalmente" era expressão convencional de vitória decisiva, não necessariamente um relatório demográfico exato. Tremper Longman III, em God Is a Warrior, e Christopher Wright, em Old Testament Ethics for the People of God, discutem essa tensão sem minimizar a dificuldade moral do texto, situando o cherem de guerra como episódio limitado à conquista de Canaã, ligado ao julgamento sobre práticas religiosas específicas, e não como modelo permanente de conduta para Israel ou para a igreja.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Cherem é uma espécie de maldição mágica ou feitiço lançado sobre pessoas e objetos.

    Cherem é uma categoria jurídica e cúltica formal — um voto ou uma ordem declarada, com regras específicas em e — não um encantamento ou superstição; seu efeito depende da declaração e da lei, não de algum poder mágico embutido na palavra.

  • Dizem que:O cherem bíblico é a mesma prática da excomunhão judaica ou cristã ('anátema') usada até hoje.

    O uso posterior do termo — banimento formal de uma pessoa da comunidade religiosa — é um desenvolvimento pós-bíblico da mesma raiz; no texto bíblico, cherem trata majoritariamente de despojos de guerra e de bens consagrados ao santuário, não de exclusão disciplinar de um indivíduo.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • Reformada

    Lê os episódios de cherem dentro do enredo redentor-histórico como atos únicos e irrepetíveis de juízo teocrático, ligados à vocação exclusiva de Israel na conquista da terra prometida; não servem de modelo para a igreja hoje, mas apontam para a seriedade do juízo final que Cristo absorveu na cruz.

  • Luterana

    Distingue nitidamente lei e evangelho: os textos de cherem pertencem à administração política e teocrática de Israel, delimitada no tempo e no espaço, sem aplicação direta à vida do cristão sob a graça — servem para mostrar a gravidade do pecado que a cruz resolve.

  • Católica

    Segue, desde a leitura patrística, uma chave tipológico-moral: as guerras de cherem simbolizam o combate contra o pecado e os afetos desordenados na vida espiritual, mais do que um modelo de conduta bélica literal; a consagração irrevogável de é lida também como figura da entrega total da vida consagrada.

  • Pentecostal

    Destaca sobretudo o sentido de — a consagração total, sem resgate — como imagem devocional da entrega completa que Deus pede do crente hoje: separar-se radicalmente do pecado e devotar-se inteiramente a Deus, sem reservas.

O que fazer com isso

Cherem lembra que a Bíblia trata "pertencer inteiramente a Deus" como categoria séria, sem meio-termo confortável — Acã foi punido não por roubar qualquer coisa, mas por guardar para si o que já não era dele. Isso convida a uma pergunta prática, sem relação com guerra antiga: há áreas da vida que a pessoa diz ter entregado a Deus, mas continua administrando em segredo, com uma reserva pessoal? O termo não pede violência nenhuma hoje — pede honestidade sobre o que de fato foi entregue.

Passagens relacionadas6

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament: Joshua, 1865.
  • Wenham, Gordon J.. The Book of Leviticus (NICOT), 1979.
  • Longman III, Tremper e Reid, Daniel G.. God Is a Warrior, 1995.
  • Wright, Christopher J. H.. Old Testament Ethics for the People of God, 2004.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Cherem é a mesma coisa que anátema na Bíblia?

Sim, no sentido literal: a Septuaginta traduziu o hebraico cherem pelo grego anáthema, e é dessa tradução que vem o uso de 'anátema' no Novo Testamento e na tradição cristã posterior. A ideia comum aos dois termos é 'coisa separada, sem volta ao uso comum'.

Deus mandou exterminar povos inteiros por causa do cherem?

Em textos específicos de conquista, como Josué e partes de Deuteronômio, sim — certas cidades cananeias foram declaradas cherem, o que incluía a destruição total. Estudiosos debatem se a linguagem de 'destruir tudo' é literal ou usa a retórica hiperbólica comum aos relatos de guerra do antigo Oriente Próximo, mas o texto liga esse julgamento a práticas religiosas específicas daqueles povos, não a um princípio permanente de extermínio.

Por que Acã foi punido por pegar objetos de Jericó?

Porque esses objetos já não pertenciam a ninguém: estavam sob cherem, formalmente separados para destruição ou para o tesouro do santuário. Guardar parte deles para uso pessoal era tratado como profanação, algo que o texto apresenta como contaminando toda a comunidade até ser resolvido.

O cherem bíblico é igual à excomunhão praticada hoje?

Não exatamente. O termo sobreviveu no hebraico rabínico e no uso eclesiástico como banimento formal de uma pessoa da comunidade, herdando a ideia de 'separação sem volta', mas essa aplicação social é um desenvolvimento posterior — o cherem bíblico tratava sobretudo de despojos de guerra e bens ou pessoas consagrados ao santuário.

Palavras próximas

Temas

  • #cherem
  • #anátema
  • #guerra santa
  • #Antigo Testamento
  • #consagração
  • #Josué

Publicado em 19/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • חֵרֶם (cherem) em hebraico, Strong H2764
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

Uma explicação nova por semana

Sem devocional, sem corrente e sem promoção. Só o verbete da semana, com o contexto que normalmente fica de fora. Todo e-mail leva um link para sair, e sair é imediato.

Esta palavra nas passagens explicadas

Textos eticamente difíceisLevítico 27:28-29

O que era o "herem", o anátema que não podia ser resgatado?

Levítico 27 fecha o livro tratando de votos: uma pessoa podia consagrar ao Senhor um animal, uma casa, um campo ou até a si mesma, e depois resgatar essa promessa pagando o valor estabelecido pelo sacerdote, mais um quinto. Os versículos 28 e 29, porém, descrevem algo diferente: o herem, aquilo formalmente banido e entregue ao Senhor sem volta. Isso não podia ser vendido nem resgatado; era coisa santíssima. Quando o herem recaía sobre uma pessoa, a lei era direta: ela não seria resgatada, mas morta.

Ler explicação →

O que significa a cidade ser "anátema" em Josué 6?

Depois de sete dias rodeando os muros de Jericó, Josué declara que a cidade será "anátema ao SENHOR": ela e tudo o que havia nela seria devotado à destruição, com uma exceção — Raabe e sua casa, poupadas porque ela escondeu os espiões israelitas. "Anátema" traduz uma categoria jurídico-religiosa hebraica, herem: algo retirado do uso comum e entregue por inteiro a Deus, seja pela destruição, seja pela consagração.

Ler explicação →

Deus endureceu o coração dos cananeus para a guerra?

Depois de narrar a conquista do norte de Canaã, Josué 11 termina com uma observação incômoda: nenhuma cidade fez paz com Israel, exceto os heveus de Gibeão, que usaram um estratagema (Josué 9). O texto explica essa recusa geral com uma frase direta: "isto veio do SENHOR, que endurecia o coração deles para que resistissem com guerra a Israel [...] e que não lhes fosse feita misericórdia". O mesmo verbo hebraico aqui aparece em Êxodo para o coração de Faraó, aproximando os dois episódios.

Ler explicação →