
O que é a abominação da desolação?
O que significa a abominação da desolação?
Portanto, quando virdes que a abominação da desolação, dita pelo profeta Daniel, está no lugar santo, (quem lê, entenda),
Resposta curta
É uma expressão hebraica que significa, ao pé da letra, "a coisa detestável que devasta" — algo idolátrico instalado onde não deveria estar, e que profana o lugar.
A chave mais forte para identificá-la não vem de fora: vem do próprio Evangelho. Lucas, escrevendo a mesma cena para leitores não-judeus, troca a expressão por uma explicação — "quando virdes Jerusalém cercada de exércitos". Barnes, Clarke e a tradição majoritária tratam isso como o próprio Novo Testamento dizendo o que a frase significa.
As insígnias romanas traziam imagens do imperador e a águia, e as legiões prestavam culto a elas. Um exército assim acampado ao redor do templo era, para um judeu, exatamente a categoria "abominação".
O que continua em disputa é se a profecia se esgotou em 70 d.C. ou se aquele evento prefigura outro ainda futuro.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoJesus se coloca como intérprete autorizado de Daniel — cita o profeta e aplica a profecia ao que está por vir sobre Jerusalém. Mas há algo além da citação. Ele acabara de anunciar a destruição do templo, e nos capítulos anteriores apresenta a si mesmo como o templo verdadeiro ( registra a mesma ideia). A profanação do santuário de pedra ocorre depois de o santuário definitivo já ter sido rejeitado, morto e levantado. A ordem dos dois eventos é parte do que Mateus está dizendo.
Respaldo no Novo Testamento: ;
Contexto histórico
A cena começa com os discípulos elogiando as pedras do templo. Jesus responde que não ficará pedra sobre pedra, e eles perguntam quando — a conversa inteira de nasce dessa pergunta.
A expressão vem de Daniel, e já tinha um precedente histórico terrível na memória judaica. Em 167 a.C., Antíoco Epifânio mandou erguer um altar pagão sobre o altar do templo e sacrificar ali um porco. Quando Jesus fala de "abominação da desolação", o ouvinte não precisa de explicação: sabe exatamente que tipo de coisa é aquela, porque já aconteceu.
O parêntese "quem lê, entenda" é uma nota ao leitor, não fala de Jesus dentro da cena — e sinaliza que a frase pede reconhecimento, não decodificação esotérica.
A instrução que vem em seguida é o que dá o tom: **fujam**. Não resistam, não se reúnam, não subam ao templo. Josefo registra que os cristãos de Jerusalém deixaram a cidade antes do cerco final, e a tradição antiga liga essa fuga a este aviso.
Aprofundamento
βδέλυγμα (bdélygma) é o termo que a versão grega do Antigo Testamento usava para ídolos e para o que é ritualmente detestável. ἐρήμωσις (erémosis) é devastação, o estado de ficar deserto. Juntos: a coisa detestável que deixa um lugar em ruínas.
O argumento mais forte da leitura preterista é textual, não histórico. Os três sinóticos narram a mesma cena, e Lucas — que escreve para leitores gentios, sem familiaridade com Daniel — substitui a expressão por "quando virdes Jerusalém cercada de exércitos". B. W. Johnson chama isso diretamente de "a explicação de Cristo para a abominação da desolação". É difícil argumentar que os evangelistas entendiam coisas diferentes.
Barnes acrescenta o detalhe que fecha o quadro: as legiões carregavam as imagens do imperador e as águias à frente, e lhes prestavam honras divinas. Clarke cita Josefo relatando que os romanos levaram suas insígnias ao templo e sacrificaram diante delas.
O contra-argumento futurista também tem peso, e ignorá-lo seria desonesto. Jesus liga essa abominação a uma tribulação "como nunca houve desde o princípio do mundo" (v. 21), e depois a sinais cósmicos e à vinda do Filho do homem — linguagem que, para muitos, excede o que 70 d.C. entregou. Paulo, em , descreve alguém que se assenta no santuário de Deus, e boa parte da tradição lê os dois textos juntos.
A Catena Aurea preserva Crisóstomo já negociando a mesma tensão no século IV: onde termina o que se cumpriu na queda de Jerusalém e onde começa o que aponta além. A discussão não é moderna nem brasileira.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A abominação da desolação é claramente um evento ainda futuro.
substitui a expressão por "Jerusalém cercada de exércitos", ao narrar a mesma cena. Isso não encerra a discussão, mas torna a leitura de 70 d.C. muito mais que uma opinião.
Dizem que:A expressão foi inventada por Jesus.
Ele mesmo atribui a Daniel, e o próprio texto diz isso. A expressão aparece em :31 e 12:11, e já tinha um cumprimento reconhecido em Antíoco Epifânio, no século II a.C.
Dizem que:"Quem lê, entenda" indica um código a ser decifrado.
É uma nota do evangelista ao leitor, pedindo atenção — o mesmo recurso usado em . Pede reconhecimento de algo já anunciado por Daniel, não decodificação.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura preterista
A abominação é o exército romano e a destruição do templo em 70 d.C., conforme a explicação de . É a leitura de Barnes, Clarke e da maior parte da tradição protestante clássica.
Leitura futurista
O evento de 70 d.C. prefigura uma profanação futura do santuário, ligada ao "homem do pecado" de e à septuagésima semana de Daniel.
Leitura de duplo cumprimento
A profecia se cumpriu historicamente em 70 d.C. e permanece como padrão do que se repete sempre que o poder político se instala no lugar do sagrado. É a posição de boa parte da tradição patrística.
Leitura histórico-crítica
A referência primária é Antíoco Epifânio em Daniel, reaplicada pelos evangelistas ao contexto da guerra judaica, com o texto escrito à luz dela.
No original3 termos
βδέλυγμαbdélygmaG946
Coisa detestável. Na versão grega do Antigo Testamento, o termo padrão para ídolo e para o que é ritualmente abominável.
ἐρήμωσιςerémosisG2050
Devastação, estado de ficar deserto. A expressão junta as duas ideias: o detestável que deixa em ruínas.
τόπος ἅγιοςtópos hágiosG5117
"Lugar santo". Marcos escreve apenas "onde não deve", o que sugere que a expressão designava a área do templo sem precisar nomeá-la.
O que fazer com isso
A instrução prática que segue a profecia é fugir — e ela foi dada com antecedência para ser útil, não impressionante. Vale como critério de leitura: um ensino sobre profecia que não produz nenhuma ação possível, e só produz espera ansiosa, está usando o texto de um jeito que o próprio texto não usa.
Passagens relacionadas7
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Fontes consultadas5 obras
- Albert Barnes. Notes on the New Testament, 1834.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1831.
- Tomás de Aquino. Catena Aurea, 1263.
- B. W. Johnson. The People's New Testament, 1891.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que Lucas escreve diferente dos outros dois?
Ele escreve para leitores gentios, que não teriam a referência de Daniel na cabeça. Trocar a expressão por uma descrição é um recurso de tradutor — e, de quebra, entrega como o próprio Novo Testamento a entendia.
Os cristãos realmente fugiram de Jerusalém?
A tradição antiga registra que a comunidade cristã deixou a cidade antes do cerco final, e liga essa saída a este aviso. É relato histórico com boa aceitação, não certeza documental.
Então já aconteceu ou ainda vai acontecer?
Depende da escola, e as quatro estão acima. A leitura preterista tem o argumento mais forte no texto; a futurista tem o argumento mais forte no contexto do capítulo, que segue para sinais cósmicos e para a vinda do Filho do homem.
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