
Deus mandou exterminar cidades inteiras?
Como justificar a destruição total de Jericó?
E destruíram tudo o que na cidade havia; homens e mulheres, moços e anciãos, até os bois, e ovelhas, e asnos, a fio de espada.
Resposta curta
Este é um dos textos mais duros da Bíblia, e nenhuma explicação o torna confortável. Vale dizer isso antes de tudo: quem sai da discussão tranquilo não leu o versículo.
O que existe são elementos que o texto fornece e que costumam ser omitidos dos dois lados do debate — a linguagem de guerra usada na região, o prazo de quatrocentos anos declarado em , a categoria do *cherem* e o fato de o mesmo livro narrar cananeus poupados. Cada um deles muda algo. Nenhum resolve tudo.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteJesus repreende Tiago e João quando eles propõem fazer descer fogo sobre uma aldeia samaritana que não o recebeu — a proposta é explicitamente modelada em Elias, e ele a rejeita. Paulo diz que "as armas da nossa milícia não são carnais". O padrão de guerra santa não é atualizado para a igreja; é redirecionado, e o alvo passa a ser outro.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
É um dos textos mais duros da Bíblia, e nenhuma explicação o torna confortável. Quem sai tranquilo dessa discussão provavelmente não levou o versículo a sério.
Alguns dados ajudam a pensar nele com cuidado: a ordem tinha um motivo declarado, impedir práticas religiosas que incluíam sacrificar crianças, e o próprio livro mostra que a destruição não foi tão total quanto parece — várias cidades continuaram habitadas depois, e uma moradora de Jericó foi poupada com toda a família. Nada disso responde à pergunta sobre as outras crianças que morreram ali, e isso continua sendo o ponto mais difícil, sem resposta fácil.
O que fica claro é que essa guerra estava ligada a um momento específico: o Novo Testamento não a usa como modelo, e Jesus repreende discípulos que quiseram repetir algo parecido.
Contexto histórico
O termo hebraico é *cherem*, traduzido por "destruição total", "anátema" ou "coisa consagrada". Não é vocabulário militar comum: designa algo entregue a Deus e por isso retirado do uso humano — o mesmo termo se aplica a objetos dedicados ao santuário.
Em Jericó, isso significa que nada podia ser tomado como despojo. O capítulo seguinte narra Acã pegando um manto e prata escondidos, e o desastre que se segue. A regra é justamente que ninguém lucra.
O fundamento declarado está em , e é religioso: para que não ensinem a Israel as práticas dos povos da terra, entre elas queimar filhos no fogo, mencionada explicitamente.
acrescenta um dado cronológico que raramente entra na discussão. Deus diz a Abraão que a descendência dele voltaria à terra "na quarta geração, porque não está ainda completa a maldade dos amorreus". O texto apresenta a ação como juízo adiado por séculos, não como conquista oportunista.
Aprofundamento
Quatro considerações costumam aparecer no debate sério, e é honesto listá-las com as respectivas limitações.
Primeira: a retórica de guerra da época. Inscrições reais de todo o antigo Oriente Próximo descrevem vitórias em termos totais — a estela de Mesa, rei de Moabe, do século IX a.C., usa inclusive a palavra *cherem* e afirma ter destruído completamente cidades israelitas. Quem trabalha com esses textos observa que a linguagem era convencional e exagerada por padrão. Limitação: reconhecer a convenção não elimina a ordem, que está no texto.
Segunda: o próprio livro contradiz a totalidade. diz que Josué tomou toda a terra e nada deixou; , capítulo seguinte, lista dezenas de cidades cananeias não tomadas, com os povos ainda morando nelas. admite que Judá não conseguiu expulsar os jebuseus. A leitura de que a linguagem é hiperbólica encontra apoio dentro da própria Bíblia.
Terceira: as exceções narradas. Raabe e toda a família dela são poupadas em Jericó, no mesmo capítulo. Os gibeonitas são poupados por aliança. informa que nenhuma cidade fez paz com Israel exceto Gibeão — a implicação é que a paz era possível.
Quarta: Israel está sob a mesma ameaça. promete a Israel exatamente o mesmo destino em caso de infidelidade, e os livros dos Reis narram esse cumprimento. Não é uma lei étnica; é uma lei de aliança que se volta contra o próprio povo, e o exílio é o texto provando isso.
O que permanece difícil, e permanece: crianças. Nenhuma das quatro considerações responde a isso, e comentaristas honestos dizem que não respondem. As posições variam entre juízo divino sobre uma cultura, hipérbole militar que não descreve execução literal e reconhecimento franco de que o texto expressa a guerra santa de um período específico. A discussão é antiga e continua aberta entre cristãos que creem igualmente na Bíblia.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A Bíblia apresenta a conquista como limpeza étnica.
A razão declarada em é religiosa, não étnica, e o mesmo livro incorpora cananeus que se juntam a Israel — Raabe entra na genealogia de Jesus, e os gibeonitas permanecem. Israel recebe a mesma ameaça de destruição em caso de infidelidade.
Dizem que:Josué exterminou todos os cananeus.
lista dezenas de cidades cananeias que continuaram habitadas, e admite que os jebuseus permaneceram em Jerusalém. O próprio cânon documenta que a destruição não foi total.
Dizem que:O texto autoriza guerra religiosa hoje.
O *cherem* é ligado a uma terra específica, a um período e a uma aliança que o Novo Testamento declara cumprida. Jesus repreende os discípulos que propõem fogo sobre uma aldeia, e manda Pedro guardar a espada.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Juízo divino sobre uma cultura
A ação é apresentada como sentença adiada por quatrocentos anos, conforme , contra práticas que incluíam sacrifício de crianças. É a leitura tradicional. Sua dificuldade permanece sendo as crianças da própria Jericó.
Hipérbole de guerra
A linguagem total é convenção do gênero, atestada na estela de Mesa e em inscrições assírias, e a própria Bíblia a desmente em . Explica muito; alguns objetam que atenua uma ordem que o texto dá com todas as letras.
Leitura de acomodação histórica
O relato expressa a guerra santa como Israel a compreendia em seu tempo, e a revelação avança em direção a Jonas e ao Novo Testamento. Sustentada por parte da teologia moderna. Sua dificuldade é o custo que impõe à autoridade do texto.
No original2 termos
חֵרֶםcherem
"Consagração por destruição". Designa o que é entregue a Deus e retirado do uso humano — inclusive objetos dedicados ao santuário. O termo aparece também na estela moabita de Mesa.
לְפִי־חֶרֶבlefi-cherev
"A fio de espada" — literalmente "à boca da espada". Fórmula fixa de conquista, usada em textos militares de toda a região.
O que fazer com isso
A tentação, com um texto assim, é escolher rápido entre duas saídas: justificar tudo, ou descartar o livro.
As duas poupam o leitor de conviver com a dificuldade, e é a convivência que produz leitura. O próprio cânon convive: o mesmo Antigo Testamento que traz traz Jonas — um livro inteiro sobre Deus poupando uma cidade inimiga contra a vontade do profeta.
O que não se sustenta é o uso da passagem como precedente. O *cherem* é vinculado a um momento, a uma terra e a uma aliança específica, e o Novo Testamento é explícito ao dizer que as armas da luta cristã "não são carnais". Quem já usou Josué para justificar violência estava fazendo exatamente o que Pedro fez no Getsêmani, e ouviu a mesma resposta.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A arqueologia confirma a destruição de Jericó?
É um dos pontos mais disputados da arqueologia bíblica. Kathleen Kenyon datou a destruição das muralhas muito antes da data tradicional do êxodo; Bryant Wood contestou a datação dela. O debate segue sem consenso.
Por que Raabe foi poupada?
Ela protegeu os espias e declarou que sabia o que Deus havia feito. O texto a poupa junto com toda a família, e a inclui na genealogia de Jesus. É a demonstração, dentro do próprio capítulo, de que a linha não era étnica.
Cristãos podem usar esses textos para justificar violência?
Não. Historicamente foram usados assim — nas cruzadas e em colonizações —, e é um uso que o Novo Testamento bloqueia diretamente. As duas passagens mais claras são e .