
Lançar sortes: como a igreja escolheu Matias, e por que parou de fazer isso
Por que os apóstolos lançaram sortes para escolher o substituto de Judas?
E apresentaram dois: a José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Justo; e a Matias. E orando, disseram: Tu, Senhor, conhecedor dos corações de todos, mostra a qual destes dois tu tens escolhido. Para que ele tome parte deste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou para ir a seu próprio lugar. E lançaram-lhes as sortes; e caiu a sorte sobre Matias. E ele passou a ser contado junto com os onze apóstolos.
Resposta curta
Entre a ascensão e Pentecostes, a igreja precisa substituir Judas entre os doze. Depois de reunir critérios claros e apresentar dois candidatos qualificados — não um sorteio às cegas entre qualquer pessoa —, os apóstolos oram e lançam sortes, e a sorte cai sobre Matias.
O método era reconhecido em todo o mundo antigo, e no Antigo Testamento carregava peso teológico específico: não acaso, mas instrumento pelo qual Deus revelava sua escolha em situações que exigiam decisão final além do discernimento humano ordinário — o Urim e Tumim do sumo sacerdote, a divisão da terra entre as tribos, o bode expiatório escolhido no Dia da Expiação.
O detalhe mais discutido deste episódio, porém, não é o método em si — é o que acontece depois dele. Depois de , o lançamento de sortes nunca mais aparece no Novo Testamento como meio de decisão da igreja. Este verbete examina por que essa ausência é significativa, e onde a inferência é mais forte e onde é mais frágil do que costuma ser apresentada.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO lançamento de sortes aparece duas vezes, muito próximas, na virada da narrativa neotestamentária: os soldados romanos lançam sortes pela túnica de Cristo ao pé da cruz, cumprindo (), e pouco depois os apóstolos lançam sortes para completar o número dos doze, pouco antes de Pentecostes. Depois da efusão do Espírito, o texto nunca mais mostra a igreja recorrendo a esse método — a trajetória se desloca de um sinal externo e mecânico para a orientação interior e contínua do Espírito Santo na vida da igreja (; ).
Respaldo no Novo Testamento: ; ; ;
Contexto histórico
A cena se passa entre a ascensão de Jesus e o dia de Pentecostes, com cerca de cento e vinte discípulos reunidos. Pedro toma a palavra, cita como base escriturística para a necessidade de substituir Judas, e estabelece critério objetivo para o candidato: alguém que tivesse acompanhado o grupo desde o batismo de João até a ascensão, e que fosse testemunha ocular da ressurreição (v. 21-22).
A comunidade apresenta dois nomes que atendem ao critério — José, chamado Barsabás, e Matias — e ora, pedindo que Deus revele sua escolha entre os dois já qualificados. Só então lançam as sortes.
O procedimento de lançar sortes no mundo antigo geralmente envolvia pedras, gravetos marcados ou objetos semelhantes, colocados num recipiente, sacudidos ou sorteados de alguma forma que retirasse a decisão final das mãos humanas. Não era entendido, na teologia israelita, como acaso puro — resume essa convicção com precisão: "A sorte se lança no regaço; mas do SENHOR vem toda a decisão dela."
O método tinha precedentes de peso no Antigo Testamento: o Urim e Tumim, instrumento sacerdotal de consulta (), a divisão da terra prometida entre as tribos de Israel (), a escolha do bode que seria oferecido no Dia da Expiação (). Mesmo fora de Israel, marinheiros pagãos usam o método para identificar o culpado da tempestade no livro de Jonas () — evidência de que era prática culturalmente ampla, não invenção religiosa exclusiva de Israel, ainda que a teologia israelita a interpretasse de modo distinto, sob a soberania de um único Deus.
Aprofundamento
A palavra grega usada aqui, klēros, significa tanto "sorte" quanto "porção" ou "herança" — a mesma raiz que, por caminho histórico posterior, deu origem à palavra "clero", porque o clero cristão antigo era entendido como a "porção" (klēros) especialmente pertencente a Deus. É observação linguística curiosa, não argumento teológico por si, mas ajuda a sentir o campo semântico da palavra: sorte, no pensamento bíblico, está próxima da ideia de porção designada, não de acaso desconectado de propósito.
O precedente mais importante para entender o peso do método é o Urim e Tumim, os dois objetos que o sumo sacerdote carregava no peitoral e usava para consultar a vontade de Deus em questões que exigiam decisão acima do discernimento humano comum (; ). O método de opera numa lógica semelhante: os apóstolos já haviam feito o trabalho de discernimento humano possível — definir critérios, avaliar candidatos, restringir a dois nomes —, e reservam ao lançamento de sortes, precedido de oração explícita, apenas a decisão final entre dois já igualmente qualificados.
Aqui chega o ponto central, e ele exige cuidado com o tipo de evidência que se está lidando. Depois deste episódio, o Novo Testamento nunca mais registra a igreja lançando sortes para tomar decisão alguma. A escolha dos sete para o serviço diaconal, em , é feita por indicação da congregação e imposição de mãos apostólica — não por sorteio. O envio de Barnabé e Saulo para a obra missionária, em , vem por meio de jejum, oração e palavra profética do Espírito Santo — "Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra para a qual os tenho chamado" —, não por sorte. O concílio de Jerusalém, em , delibera coletivamente e conclui com a fórmula "pareceu bem ao Espírito Santo e a nós" — deliberação e discernimento, não sorteio.
Esse padrão é real e observável no texto — não é leitura forçada. Mas é preciso nomear com honestidade o tipo de argumento que ele sustenta: é inferência a partir de ausência, mais fraca do que uma afirmação positiva e explícita seria. O texto em nenhum momento diz "não lançaremos mais sortes porque o Espírito agora habita permanentemente em cada crente." A conexão é feita pelos intérpretes porque ela se encaixa bem na arquitetura da narrativa — sortes usadas antes de Pentecostes, Espírito derramado sobre todos em como cumprimento explícito de , e nenhuma sorte depois — mas é leitura por coerência de padrão, não citação direta do texto justificando a mudança.
Há uma extrapolação popular que vai além do que o texto sustenta e merece correção: a ideia de que a escolha de Matias foi um erro, e que Paulo seria o "verdadeiro" décimo segundo apóstolo pretendido por Deus. O texto não dá nenhum sinal nesse sentido — Pedro fundamenta a necessidade de substituição em base escriturística explícita (), a comunidade participa do processo, e Matias é contado entre os apóstolos sem qualquer marcador narrativo de erro ou de arrependimento posterior. Essa leitura diz mais do que o texto autoriza, e vale nomeá-la como especulação, não como exegese.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Lançar sortes era decisão aleatória, sem critério algum.
O sorteio só entrou depois que a comunidade já havia estabelecido critérios objetivos (v. 21-22) e restringido a escolha a dois candidatos igualmente qualificados. Não era substituto do discernimento — era o desempate final, precedido de oração.
Dizem que:A Bíblia manda a igreja continuar usando sorteio para decisões hoje.
O método não reaparece em nenhuma decisão registrada depois deste episódio. As decisões seguintes em Atos — os sete (cap. 6), a comissão missionária (13:2-3), o concílio de Jerusalém (cap. 15) — seguem oração, deliberação e discernimento do Espírito, não sorteio.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Enfatiza a soberania de Deus por trás do resultado do sorteio (), ao mesmo tempo em que trata o método como próprio de um momento específico pré-Pentecostes, com cautela cessacionista quanto à busca de sinais equivalentes hoje.
Católica
Vê neste episódio um modelo primitivo de discernimento eclesial ordenado, relevante para a compreensão da sucessão apostólica — processo comunitário, com critérios e oração, não escolha arbitrária ou individual.
Pentecostal
Acentua o contraste com o padrão posterior de Atos, lendo a ausência de sorteio depois de Pentecostes como confirmação de que a igreja passa a contar com a orientação direta e viva do Espírito Santo nas decisões comunitárias.
No original3 termos
κλῆροςklēros
"Sorte", "porção", "herança". A mesma raiz, por via histórica posterior, originou a palavra "clero" — o clero entendido como porção especialmente pertencente a Deus.
אוּרִים וְתֻמִּיםUrim veTummim
"Urim e Tumim". Instrumento sacerdotal usado para consultar a vontade de Deus em questões que exigiam decisão além do discernimento humano ordinário ().
גּוֹרָלgoral
Hebraico para "sorte" no Antigo Testamento, usado por exemplo na divisão da terra entre as tribos () e na escolha do bode do Dia da Expiação ().
O que fazer com isso
Este texto costuma ser usado para dois extremos igualmente problemáticos: defender que cristãos devem usar sorteio ou métodos aleatórios para discernir a vontade de Deus hoje, ou insistir que qualquer método desse tipo é sempre ilegítimo e supersticioso. Nenhuma das duas conclusões encontra respaldo sólido no texto.
O que o episódio oferece, com mais precisão, é retrato de uma comunidade discernindo a vontade de Deus com as ferramentas disponíveis num momento específico da história da redenção — antes da efusão plena do Espírito sobre todos os crentes. O princípio permanente que se pode extrair não é o mecanismo (sorteio), mas a postura: deliberação séria antes da decisão final, critérios objetivos aplicados com honestidade, oração explícita, e recusa de tomar autoridade por autoproclamação — os candidatos são apresentados pela comunidade, não se autoindicam.
Para quem enfrenta decisões difíceis hoje, o texto convida a um padrão parecido, ainda que com meios diferentes: fazer o trabalho de discernimento possível, orar de verdade antes da decisão, e submeter o resultado final a Deus em vez de manipulá-lo para garantir o desfecho que já se desejava de antemão.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas5 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- John Gill. Exposition of the Entire Bible, 1748.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- William Smith. Smith's Dictionary of the Bible, 1863.
- H. D. M. Spence e Joseph S. Exell (eds.). The Pulpit Commentary, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O sorteio de Matias foi decisão puramente aleatória?
Não no sentido moderno de acaso. Foi usado como desempate final entre dois candidatos já qualificados por critérios objetivos, precedido de oração explícita pedindo que Deus revelasse sua escolha.
A igreja continuou usando sortes depois deste episódio?
Não há registro disso no Novo Testamento. As decisões seguintes em Atos usam oração, deliberação comunitária e discernimento do Espírito Santo, não sorteio — padrão perceptível, ainda que o texto não explique a mudança de forma explícita.
A escolha de Matias foi um erro, e Paulo seria o apóstolo "certo"?
O texto não dá nenhum sinal nesse sentido. Pedro fundamenta a substituição em base escriturística (), e Matias é contado entre os apóstolos sem qualquer marcador de erro. Essa leitura é especulação além do que o texto sustenta.
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