
Nínive foi poupada em Jonas e destruída em Naum
Por que Naum celebra a destruição da cidade que Jonas viu se arrepender?
O SENHOR é Deus zeloso e vingador; o SENHOR é vingador e furioso; o SENHOR se vinga de seus adversários, e que guarda ira contra seus inimigos. O SENHOR é tardio para se irar, porém grande em poder; e não terá ao culpado por inocente. O SENHOR caminha entre a tempestade e o turbilhão, e as nuvens são o pó de seus pés.
Resposta curta
Dois livros do Antigo Testamento tratam da mesma cidade e chegam a desfechos opostos. Em Jonas, Nínive se arrepende e é poupada. Em Naum, ela é destruída, e o livro celebra.
A distância entre os dois é de aproximadamente um século e meio, o que já resolve a maior parte do problema: são gerações diferentes.
O detalhe mais interessante, porém, está na abertura de Naum. Ele cita a fórmula mais famosa do Antigo Testamento sobre o caráter de Deus — a de — e seleciona a metade dela.
Onde Jonas cita a parte da misericórdia para reclamar, Naum cita a parte do juízo para anunciar. Os dois profetas usam o mesmo texto de base, e cada um pega uma ponta.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteJonas e Naum ativam as duas metades da fórmula de , e o Novo Testamento apresenta as duas convergindo na cruz — fala de Deus ser justo e justificador, que é a formulação da tensão. Jesus cita o próprio Jonas como sinal em , observando que os ninivitas se arrependeram com a pregação dele. As duas metades permanecem; o que muda é onde elas se encontram.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Dois livros da Bíblia falam da mesma cidade, Nínive, e chegam a finais opostos: em Jonas, ela se arrepende e é poupada; em Naum, é destruída, e o livro celebra. Cerca de cento e cinquenta anos separam os dois textos — são gerações diferentes, e nada indica que arrependimento passe de pai para filho.
Os dois profetas citam a mesma descrição antiga do caráter de Deus, que tem duas partes: misericórdia e justiça. Jonas cita a parte da misericórdia para reclamar; Naum cita a da justiça para anunciar o fim de um império conhecido por sua crueldade, documentada pelos próprios registros dele. É difícil de ler, mas vale notar: essa celebração vem de quem sofria sob aquele império, não de quem o comandava.
Contexto histórico
Nínive era a capital da Assíria, o império que destruiu o reino do norte de Israel em 722 antes de Cristo e deportou sua população.
A crueldade assíria em campanha é documentada pelos próprios assírios. Relevos e inscrições reais descrevem empalamentos, esfolamentos e pilhas de cabeças com naturalidade administrativa — não é exagero de vítimas.
Isso é o pano de fundo do livro, e o capítulo 3 o retoma explicitamente: cidade sanguinária, cheia de mentiras e de rapina.
A queda de Nínive aconteceu em 612 antes de Cristo, diante de uma coalizão de babilônios e medos. Naum é datado pouco antes disso.
Jonas, cujo protagonista aparece em no reinado de Jeroboão II, situa-se na primeira metade do século VIII. A distância entre os dois livros é, portanto, de cerca de cento e cinquenta anos.
O destinatário de Naum não é Nínive. É Judá — o livro anuncia o fim do opressor a quem está debaixo dele.
Aprofundamento
A questão da fórmula é o que dá profundidade ao par de livros.
é a autodescrição divina mais citada do Antigo Testamento. Ela tem duas metades: misericordioso e piedoso, tardio em irar-se e grande em benignidade — e, em seguida, que de maneira nenhuma terá o culpado por inocente, visitando a iniquidade.
Jonas cita a primeira metade em 4:2, e cita reclamando: eu sabia que és Deus clemente e misericordioso, tardio em irar-se — por isso não quis vir.
Naum cita a segunda em 1:3, mantendo a expressão "tardio para se irar" e emendando com "e não terá ao culpado por inocente".
Os dois profetas trabalham sobre o mesmo texto e extraem consequências opostas. Isso não é contradição: é a demonstração de que a fórmula tem duas partes e de que cada situação histórica ativa uma delas.
Sobre a diferença de desfecho, há três considerações.
A primeira é cronológica, e é a mais simples. Cento e cinquenta anos separam os dois livros. O arrependimento narrado em Jonas é de uma geração; a destruição anunciada em Naum atinge outra. Nada no cânon sugere que arrependimento seja hereditário.
A segunda é sobre o gênero dos dois livros. Jonas é narrativa e trata principalmente do profeta, não da cidade — o livro termina com uma pergunta dirigida a Jonas sobre compaixão. Naum é coleção de oráculos e trata do juízo sobre um império.
A terceira é sobre o destinatário. Naum fala a um povo pequeno sob um império que documentou a própria crueldade. Um oráculo de juízo, nessas circunstâncias, funciona como promessa de que a violência tem fim — e é assim que o livro se apresenta em 1:15, com a notícia de paz.
Há um ponto que precisa ser dito com franqueza, porque é o que mais incomoda o leitor moderno: o livro celebra a destruição de uma cidade, e o capítulo 3 descreve a queda com imagens de humilhação que são difíceis de ler.
Não há como suavizar isso, e as leituras que tentam costumam ficar desonestas. O que se pode observar é que a celebração está na boca de quem está debaixo do império, e não de quem o comanda — o que não torna o texto confortável, mas descreve corretamente de onde ele fala.
O nome do profeta, aliás, significa consolo.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Os dois livros se contradizem sobre o destino de Nínive.
Cerca de cento e cinquenta anos separam os dois. O arrependimento narrado em Jonas é de uma geração, e a destruição anunciada em Naum atinge outra — nada no cânon sugere que arrependimento seja hereditário.
Dizem que:Naum ignora o lado misericordioso de Deus.
Ele cita a mesma fórmula de que Jonas cita, mantendo inclusive "tardio para se irar". O que ele faz é emendar com a segunda metade da fórmula, que Jonas omite.
Dizem que:A crueldade assíria descrita é exagero das vítimas.
Relevos e inscrições reais assírias descrevem empalamentos, esfolamentos e pilhas de cabeças com naturalidade administrativa. A documentação é dos próprios agressores.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Duas gerações, dois desfechos
Leitura majoritária. A distância cronológica entre os livros e a diferença de destinatários explicam a divergência sem exigir harmonização forçada.
Duas metades da mesma fórmula
Acentua que os dois livros citam e selecionam partes opostas. Lê o par como demonstração de que a autodescrição divina tem dois lados igualmente escriturísticos.
No original3 termos
אֵל קַנּוֹאEl qano
"Deus zeloso". O mesmo adjetivo do segundo mandamento em ; descreve exclusividade de aliança, e não emoção instável.
אֶרֶךְ אַפַּיִםerech appayim
"Tardio para se irar", literalmente longo de narinas. É a expressão de que Naum mantém antes de emendar com a metade do juízo.
נַחוּםNachum
O nome do profeta significa consolo. O livro se apresenta em 1:15 como notícia de paz para Judá, e não como oráculo dirigido a Nínive.
O que fazer com isso
O par Jonas e Naum é o melhor exemplo, dentro do Antigo Testamento, de por que um versículo isolado sobre o caráter de Deus rende conclusões opostas.
A mesma fórmula de sustenta os dois livros. Quem cita só a primeira metade descreve um Deus que não julga; quem cita só a segunda descreve um Deus que não perdoa. O texto de base tem as duas.
Isso é aplicável muito além destes dois livros, e é o motivo pelo qual citação seletiva funciona tão bem: a seleção não precisa distorcer nada para produzir o resultado desejado.
Sobre o conteúdo de Naum, há um uso legítimo e um ilegítimo.
O legítimo é o que o livro faz: dizer a quem está sob violência prolongada que ela terá fim. Nínive era um império que registrava as próprias atrocidades em pedra.
O ilegítimo é usar o livro para celebrar a desgraça de um adversário pessoal. A distância entre uma coisa e outra é a diferença entre quem está debaixo e quem está por cima.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas4 obras
- Edward Bouverie Pusey. The Minor Prophets: A Commentary, 1860.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1866.
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quanto tempo separa Jonas de Naum?
Cerca de cento e cinquenta anos. Jonas situa-se na primeira metade do século VIII, e Naum é datado pouco antes da queda de Nínive, em 612 antes de Cristo.
Naum fala para Nínive?
O destinatário é Judá. O livro anuncia o fim do opressor a quem está debaixo dele, e se apresenta em 1:15 como notícia de paz.
É legítimo celebrar a destruição de uma cidade?
O livro o faz, e o capítulo 3 é difícil de ler. O que se pode observar é que a celebração está na boca de quem está sob o império, e não de quem o comanda — o que descreve de onde o texto fala, sem torná-lo confortável.
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