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Significado Bíblico
Dicionário bíblicohebraicointermediária

O que é o levirato (yibbum) na Bíblia?

o que significa levirato na bíblia

A palavra no original

יִבּוּם

yibbum

levirato; o ato de cumprir o dever de cunhado

Tudo isto ao mesmo tempo

  • dever legal do cunhado de casar com a viúva do irmão morto sem filhos
  • preservação do nome e da linhagem do falecido em Israel
  • proteção econômica e social da viúva sem herdeiro
  • direito de recusa pública com sanção de vergonha (halitsá)
  • continuidade da herança de terra dentro do clã familiar

Resposta curta

Yibbum (יִבּוּם) é o termo hebraico para o levirato: a exigência de que o irmão de um homem morto sem filhos se casasse com a viúva dele. A raiz do verbo aparece em e, com mais detalhe, em , que explica o objetivo — o primeiro filho gerado nessa união herdava o nome do falecido, para que sua linhagem não desaparecesse de Israel — e prevê uma saída legal: o cunhado podia recusar o dever, submetendo-se a um rito público de vergonha.

O costume aparece na história de Judá e Tamar e ecoa, de forma modificada, no livro de Rute, quando Boaz assume o papel de resgatador da família dela. Séculos depois, os saduceus usaram essa mesma lei numa armadilha teológica contra Jesus sobre a ressurreição. Tamar e Rute aparecem na genealogia de Jesus em .

Onde a palavra aparece

Como isso aponta para Jesus

Trajetória do texto

A lei do levirato existe para impedir que uma linhagem se apague por falta de herdeiro — e é exatamente esse risco de extinção que ronda a árvore genealógica que leva a Jesus. Tamar, numa família que falhou em cumprir esse dever com ela, e Rute, uma estrangeira moabita incluída por resgate familiar, entram como elos decisivos na linha que Mateus traça até o Messias (Mt 1:3, 5-6). O texto não apresenta isso como profecia cumprida, mas o Novo Testamento, ao nomear essas duas mulheres na genealogia de Jesus, mostra que a promessa davídica sobreviveu justamente através desses mecanismos humanos de continuidade familiar — muitas vezes irregulares, sempre vulneráveis — e não apesar deles.

Respaldo no Novo Testamento:

De onde vem a palavra

O termo hebraico יִבּוּם (yibbum) vem da raiz י-ב-ם, que também gera יָבָם (yavam, "cunhado", o irmão do marido falecido) e יְבָמָה (yevamah, "cunhada", a viúva envolvida nesse dever). A palavra portuguesa "levirato", usada para nomear esse costume, nem sequer é hebraica: vem do latim levir, "cunhado", termo cunhado por juristas e antropólogos modernos para descrever, de forma comparativa, um tipo de lei familiar encontrado em várias sociedades antigas, não só em Israel.

Registros de leis semelhantes aparecem fora da Bíblia. As Leis Hititas (parágrafo 193, segundo milênio a.C.) preveem que, se um homem morre sem filhos, seu irmão, ou mesmo seu pai, deve tomar a viúva. As Leis Médio-Assírias trazem previsão parecida. Isso mostra que a ideia de um parente próximo assumir a viúva de um homem sem herdeiro era comum no mundo do Antigo Oriente Médio, e não uma invenção exclusiva de Israel.

Na Bíblia hebraica, porém, a raiz יבם aparece de forma concentrada em apenas dois textos: (o caso de Judá, Er, Onã e Tamar) e , onde a lei recebe formulação explícita. Fora daí, o vocabulário quase não ocorre no resto do Antigo Testamento — o livro de Rute, que narra um caso muito próximo, prefere o vocabulário do resgate (גֹּאֵל, goel), não o verbo yabam, o que leva comentaristas a discutir se Boaz cumpria tecnicamente a lei do levirato ou uma obrigação distinta, embora relacionada, de resgate de terra e família.

O que a lei de Deuteronômio fez foi dar contorno jurídico obrigatório a um costume familiar mais amplo: definiu quem estava sujeito ao dever, a finalidade declarada — que o primeiro filho "leve o nome do irmão morto, para que o seu nome não se apague de Israel" (Dt 25:6) — e um mecanismo de saída, a cerimônia da sandália, pela qual o cunhado podia recusar publicamente o dever, sujeitando-se à humilhação ritual descrita em . O texto bíblico, portanto, não inventou o costume; ele o disciplinou, transformando um hábito tribal difuso, presente em culturas vizinhas, em um mandamento com regras, limites e uma válvula de escape legal.

Aprofundamento

A lei mais detalhada sobre o levirato está em . O texto prevê uma situação específica: irmãos que moram juntos, na mesma propriedade familiar, e um deles morre sem deixar filho homem. Nesse caso, a viúva não deveria se casar com um estranho fora da família; o cunhado tinha o dever de tomá-la como esposa e gerar um filho que "se levante em nome do irmão morto, para que o seu nome não se apague de Israel" (Dt 25:6). O interesse por trás da lei era duplo: impedir que o nome e a herança de terra de um homem se perdessem, e garantir sustento e proteção social a uma viúva que, sem filho homem, ficaria numa posição extremamente vulnerável.

O primeiro relato bíblico dessa prática, cronologicamente, é anterior à própria lei escrita: em , Judá manda seu segundo filho, Onã, cumprir esse dever com Tamar, viúva do irmão mais velho, Er. O texto diz que Onã, sabendo que o filho não seria contado como seu, "derramava o sêmen no chão" para evitar dar descendência ao irmão — ato que o texto atribui a maldade diante do Senhor (Gn 38:9-10). Mais adiante, a própria Tamar força a questão ao se disfarçar e conceber de Judá, seu sogro, o que a narrativa trata como resposta à negligência da família em cumprir esse dever com ela.

O livro de Rute apresenta um caso semelhante, mas tecnicamente distinto: Boaz não era irmão do marido morto de Rute, e sim um parente mais distante. O vocabulário que Rute usa não é o verbo yabam, mas o de resgate (גאל, gaal) — o direito e dever de um parente próximo (go'el) de resgatar terra, pessoa ou linhagem em risco. Comentaristas como Robert Hubbard (NICOT, Ruth) observam que o livro combina elementos das duas instituições jurídicas sem fundi-las por completo, o que intriga leitores modernos que esperam encontrar ali uma aplicação exata de .

também descreve o mecanismo de recusa: se o cunhado não quisesse cumprir o dever, a viúva o levava aos anciãos da cidade, tirava sua sandália, cuspia diante dele, e a família passava a ser chamada "a casa do descalço" — humilhação pública deliberada, não uma formalidade neutra.

Séculos depois, essa mesma lei reaparece nos Evangelhos: os saduceus, que negavam a ressurreição, apresentam a Jesus o caso hipotético de uma mulher casada sucessivamente com sete irmãos, todos mortos sem filhos, e perguntam de quem ela seria esposa na ressurreição (Mt 22:24-28; Mc 12:19-23; Lc 20:28-33). Jesus responde que, na ressurreição, as pessoas "nem se casam nem se dão em casamento", deslocando o debate do plano da lei familiar terrena para a realidade da vida ressurreta.

O que costumam dizer errado2 afirmações
  • Dizem que:Rute e Boaz são um exemplo direto e técnico da lei do levirato de Deuteronômio 25.

    Boaz não era irmão do marido falecido de Rute, mas um parente mais distante. O livro de Rute usa o vocabulário do resgate (go'el, gaal), não o verbo yabam do levirato; comentaristas como Robert Hubbard (NICOT, Ruth) apontam que o caso combina elementos das duas instituições jurídicas sem ser idêntico à lei mosaica do cunhado.

  • Dizem que:A recusa da cerimônia da sandália (halitsá) era apenas um trâmite simbólico, sem peso social real.

    descreve um ato deliberado de humilhação pública diante dos anciãos da cidade, com a família do cunhado passando a ser chamada 'a casa do descalço' — uma sanção social severa, não uma formalidade neutra.

Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras

Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.

  • reformada

    Lê o levirato como parte da lei civil/judicial de Israel, historicamente vinculada ao Estado teocrático e não mais vinculante para a igreja, mas reveladora do caráter de Deus quanto à proteção de viúvos e à continuidade das famílias no pacto.

  • luterana

    Enfatiza o uso dessa lei como espelho do cuidado social de Deus com os vulneráveis (viúvas sem herdeiro), situando-a no segundo uso da lei, sem aplicá-la como norma moral direta para os cristãos hoje.

  • católica

    Destaca o valor providencial da inclusão de Tamar e Rute na linhagem davídico-messiânica, associando o levirato à doutrina da providência divina operando através de estruturas humanas e familiares imperfeitas.

  • pentecostal/evangélica

    Costuma explorar o levirato de forma mais devocional, como pano de fundo cultural para a fidelidade de Rute e como ilustração da ideia de resgate familiar aplicada, por analogia, à redenção espiritual em Cristo.

O que fazer com isso

Entender o levirato ajuda a ler , Rute e o debate dos saduceus sem projetar categorias modernas de casamento romântico sobre um texto que trata, antes de tudo, de proteção econômica e continuidade de nome numa sociedade agrária sem previdência social. Isso evita duas leituras erradas comuns: reduzir Onã a um caso isolado sobre sexualidade, ou tratar Rute e Boaz como um romance espontâneo desligado de obrigação familiar e de terra.

Passagens relacionadas7

Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.

Fontes consultadas4 obras
  • Keil, C. F. e Delitzsch, F.. Commentary on the Old Testament (Deuteronomy), 1866.
  • Hubbard, Robert L. Jr.. The Book of Ruth (NICOT), 1988.
  • de Vaux, Roland. Ancient Israel: Its Life and Institutions, 1961.
  • Koehler, Ludwig e Baumgartner, Walter. The Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament (HALOT), 1994.

Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.

Perguntas frequentes

Rute era realmente obrigada pela lei do levirato a se casar com Boaz?

Tecnicamente não, na forma estrita de , porque Boaz não era irmão do marido morto de Rute. O livro de Rute combina o costume do levirato com o direito de resgate familiar (go'el); Boaz assumiu o papel de forma voluntária, como parente próximo, não como cunhado obrigado por lei.

Por que Onã foi punido em Gênesis 38?

O texto diz que ele recusava dar descendência ao irmão morto, evitando gerar um filho que herdaria em nome dele, por interesse próprio na herança. A narrativa atribui esse ato a maldade diante do Senhor ().

O levirato ainda é praticado hoje?

No judaísmo rabínico, a recusa formal (halitsá) tornou-se a prática padrão em vez do casamento levirato, e sua aplicação é rara e regulada. Entre os cristãos, essa lei nunca foi considerada norma vinculante para a igreja.

Qual é a diferença entre levirato e o papel do go'el?

O levirato (yibbum) é o dever específico do irmão do falecido de casar com a viúva. O go'el é um papel mais amplo de parente que resgata terra, pessoas ou vidas em risco. Em Rute os dois papéis se aproximam, mas continuam sendo categorias distintas do direito familiar israelita.

Palavras próximas

Temas

  • #levirato
  • #yibbum
  • #hebraico bíblico
  • #Rute
  • #Deuteronômio
  • #casamento na Bíblia

Publicado em 19/08/2026

Construído sobre fontes em domínio público, listadas acima. Como produzimos. Encontrou um erro? Escreva para a redação.

O que foi conferido

  • יִבּוּם (yibbum) em hebraico
  • 4 obras citadas, com autor e ano
  • 2 afirmações populares checadas e refutadas
  • 4 tradições cristãs apresentadas lado a lado
  • Editor responsável: Julio Andolfo
  • Revisão teológica por pessoa nomeada — ainda não feita. Enquanto não for, dizemos isso aqui em vez de assinar um nome.

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Esta palavra nas passagens explicadas

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Cuspir no rosto de quem recusava levantar o nome do irmão morto

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