Escarnecer
o que significa escarnecer na bíblia
A palavra no original
μυκτηρίζω
myktērizō · Strong G3456
torcer o nariz para; zombar com desprezo
Tudo isto ao mesmo tempo
- desprezo
- zombaria
- ridicularizar
- tratar como tolo
Resposta curta
"Não erreis: Deus não se deixa escarnecer" é uma das frases mais citadas de Paulo, e o verbo saiu do português corrente. Escarnecer é zombar com desprezo — e o grego é ainda mais visual.
μυκτηρίζω (myktērizō) vem de μυκτήρ, narina. Literalmente: torcer o nariz para alguém. É desprezo com gesto, não insulto verbal. E o sentido da frase em não é que Deus se ofende com quem debocha dele: a segunda metade do verso explica que o assunto é a colheita. Ninguém engana o processo da semeadura.
Onde a palavra aparece
Como isso aponta para Jesus
Ligação indiretaO princípio da correspondência entre semeadura e colheita atravessa a Bíblia e encontra seu contraponto no evangelho, onde alguém colhe o que não semeou porque outro semeou por ele. Paulo mantém as duas coisas sem as confundir, e o mesmo capítulo fala de levar as cargas uns dos outros.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Escarnecer é zombar com desprezo. A palavra grega significa literalmente torcer o nariz para alguém. Quando diz que Deus não se deixa escarnecer, a frase seguinte explica o que isso quer dizer: ninguém colhe uma coisa diferente do que plantou.
De onde vem a palavra
O verbo aparece uma única vez no Novo Testamento, em , o que torna o contexto decisivo para entendê-lo. Formas relacionadas aparecem na tradução grega do Antigo Testamento, por exemplo em textos que descrevem o desprezo dos ímpios pelos profetas.
A frase completa é: não erreis, Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. A conjunção é o ponto. Paulo não está listando dois pensamentos; está explicando o primeiro com o segundo. Escarnecer de Deus, aqui, é supor que se pode semear uma coisa e colher outra.
Isso muda o alvo do aviso. A leitura comum aplica o verso a quem fala mal de Deus ou desafia a religião. O contexto de é outro: os versos anteriores tratam de sustentar quem ensina, e os seguintes contrastam semear para a carne e semear para o Espírito. O interlocutor não é o blasfemo, é o crente que imagina poder viver de um jeito e colher de outro.
A imagem agrícola é literal para o leitor antigo. Ninguém que plantava sabia de uma exceção à regra: o que se colhe é da espécie do que se plantou, e a colheita vem depois, com atraso. As duas características — correspondência e demora — são exatamente as que o argumento precisa.
O português "escarnecer" preserva bem o desprezo, mas perde a imagem física do nariz torcido. Traduções modernas dizem "de Deus não se zomba", que comunica e mantém o registro.
Aprofundamento
A frase é frequentemente usada como ameaça, e vale examinar se o texto autoriza isso.
Contra a leitura puramente ameaçadora está o próprio contexto. O verso 8 apresenta as duas semeaduras, e o verso 9 conclui pedindo que não se canse de fazer o bem, porque a seu tempo se ceifará. O tom é de encorajamento a quem persevera, não de advertência a quem ofende. Paulo está dizendo que o esforço não se perde tanto quanto que o descuido não se esconde.
A favor de manter alguma severidade está a expressão de abertura: "não erreis", isto é, não se enganem. É uma fórmula que Paulo usa em contextos de correção, inclusive em e 15:33. Ela pressupõe que alguém está de fato se enganando.
Há uma tensão real entre esse princípio e outros textos, e é justo registrá-la. Se a colheita corresponde sempre à semeadura, o que fazer com o ladrão na cruz, ou com a parábola dos trabalhadores da última hora? A resposta que a maioria dos comentaristas dá é que Paulo está enunciando um princípio geral sobre como a vida moral funciona, e não uma equação que exclua a graça — do mesmo modo que os provérbios enunciam regularidades sem prometer exceção nenhuma.
Vale ainda observar o que a metáfora concede. Entre semear e colher existe um intervalo. Quem lê o verso como promessa de retorno imediato vai concluir, ao olhar em volta, que ele é falso. O próprio Eclesiastes e vários salmos registram a demora com franqueza. A imagem agrícola incorpora essa demora em vez de negá-la.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:A frase é uma ameaça a quem zomba de Deus ou da religião.
O verso seguinte define o assunto: semeadura e colheita. E o contexto do capítulo trata de sustentar quem ensina e de perseverar em fazer o bem. O interlocutor é o crente descuidado, não o blasfemo.
Dizem que:Se a colheita corresponde à semeadura, não há lugar para a graça.
Paulo enuncia um princípio geral sobre a vida moral, no mesmo registro dos provérbios, que descrevem regularidades sem excluir exceções. O mesmo autor escreve extensamente sobre a justificação que não decorre de obras.
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura de encorajamento
Enfatiza os versos 9 e 10, que pedem para não se cansar de fazer o bem, e lê a frase como garantia de que o esforço não se perde.
Leitura de advertência
Enfatiza a fórmula "não erreis", que Paulo usa em contextos de correção, e lê a frase como alerta a quem se ilude sobre as consequências das próprias escolhas.
O que fazer com isso
Ao encontrar "Deus não se deixa escarnecer" usado como ameaça contra quem debocha da fé, leia a frase seguinte. Paulo está falando de semeadura e colheita, e o interlocutor é quem imagina poder viver de um jeito e colher de outro.
Passagens relacionadas5
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas2 obras
- Joseph Henry Thayer. A Greek-English Lexicon of the New Testament, 1889.
- James Strong. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Por que a tradução usa uma palavra tão antiga?
Porque "escarnecer" preserva o desprezo que o grego carrega. Traduções modernas dizem "de Deus não se zomba", que comunica melhor e mantém o registro, perdendo apenas a imagem física do nariz torcido.
O verbo aparece em outros lugares do Novo Testamento?
Não. é a única ocorrência, o que faz do contexto imediato a principal ferramenta para entender o termo. Formas relacionadas aparecem na tradução grega do Antigo Testamento.
Como conciliar o verso com o perdão?
A maioria dos comentaristas trata a frase como princípio geral sobre a vida moral, no registro da literatura sapiencial, e não como equação que exclua a graça. O mesmo capítulo manda levar as cargas uns dos outros.
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