
Qual era o pecado de Sodoma, segundo a Bíblia?
Por que Sodoma foi destruída?
Eis que esta foi a maldade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas tiveram soberba, fartura de pão, e abundância de conforto; porém nunca ajudaram a mão do pobre e do necessitado.
Resposta curta
Há um versículo em que a Bíblia lista, com todas as letras, "a maldade de tua irmã Sodoma" — e ele está em Ezequiel, não em Gênesis. A lista é: soberba, fartura de pão, abundância de conforto, e nunca ter socorrido o pobre e o necessitado.
O versículo seguinte acrescenta que elas "fizeram abominação" diante de Deus. Qualquer resposta honesta precisa carregar as duas partes, e a discussão real é sobre o peso de cada uma — não sobre a existência delas.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteSodoma cai por não socorrer o pobre estando farta. Jesus descreve o juízo final em com exatamente esse critério — tive fome, tive sede, era forasteiro — e se identifica com quem precisou. E, ao mencionar Sodoma, ele a coloca em posição menos grave do que a das cidades que o ouviram e não mudaram, o que desloca o alerta de lá para cá.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Existe um versículo, em outro livro da Bíblia, que lista o pecado de Sodoma — e ele não fala de sexo em nenhuma palavra: soberba, fartura de comida, muito conforto, e nunca ter ajudado o pobre. O mesmo texto acrescenta que a cidade também "fez abominação" — palavra que cobre várias coisas erradas, sem especificar qual.
A narrativa em Gênesis mostra o sintoma na noite em que apareceu na rua: os homens da cidade cercam a casa de um estrangeiro e tentam violentar os hóspedes dele — violência coletiva, não uma relação entre iguais. Jesus, mais tarde, cita Sodoma três vezes, comparando-a a cidades que rejeitaram quem foi enviado a elas.
O quadro completo é de acumulação: arrogância, riqueza sem partilha, indiferença, violência. Reduzir tudo a um item exige ignorar textos que estão ali — e a acusação mais incômoda não é sobre um crime espetacular, é sobre ter fartura e não estender a mão.
Contexto histórico
é uma acusação contra Jerusalém, e a estratégia do profeta é comparativa: ele chama Samaria de irmã mais velha e Sodoma de irmã mais nova, e diz que Jerusalém superou as duas em corrupção. Sodoma aparece ali como o padrão de comparação mais infame que existia.
É nesse contexto que a lista é dada. Ela não é uma nota lateral — é a definição que o profeta usa para sustentar a acusação contra a própria capital de Judá.
, por sua vez, narra a noite em que a corrupção se torna pública: os homens da cidade cercam a casa de Ló e exigem os hóspedes para violentá-los. É violência coletiva contra estrangeiros sob proteção — não uma cena de relação consentida, e nenhum comentarista sério a descreve como tal.
Os dois textos são sobre a mesma cidade, e não competem. Um dá o diagnóstico de fundo; o outro mostra o sintoma no dia em que ele apareceu na rua.
Aprofundamento
Vale seguir o que cada texto bíblico faz com Sodoma.
Ezequiel dá a lista de quatro itens e acrescenta a "abominação", palavra que no livro cobre desde idolatria até práticas sexuais proibidas — o profeta não especifica aqui.
Isaías abre o capítulo 1 chamando os líderes de Jerusalém de "príncipes de Sodoma" e detalha a acusação: mãos cheias de sangue, órfão desamparado, causa da viúva não defendida. associa Sodoma a adultério e a fortalecer as mãos dos malfeitores.
diz que Sodoma e as cidades vizinhas "se entregaram à fornicação e foram após outra carne" — a expressão grega *sarkos heteras* é discutida: pode indicar transgressão sexual em geral ou, como argumentam vários comentaristas, a tentativa contra seres angelicais, que é o que narra. O versículo anterior, em Judas, fala justamente de anjos que deixaram sua morada.
Jesus menciona Sodoma três vezes, sempre no mesmo contexto: cidades que rejeitam mensageiros enviados a elas. "Mais tolerável será para Sodoma no dia do juízo do que para aquela cidade."
O quadro que emerge é de uma cidade descrita por acumulação. Prosperidade sem misericórdia, arrogância, violência sexual coletiva, rejeição de quem chega. Reduzir tudo a um único item — em qualquer direção — exige ignorar textos que estão ali.
Sobre o uso da passagem no debate contemporâneo, uma observação de método: quem cita só costuma parar antes do versículo 50, e quem cita só costuma não abrir Ezequiel. As duas omissões são do mesmo tipo.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A Bíblia nunca associa Sodoma a pecado sexual.
narra uma tentativa de estupro coletivo, e fala de fornicação e de "ir após outra carne". Afirmar que a dimensão sexual não está no texto exige apagar duas passagens inteiras.
Dizem que:O pecado de Sodoma foi só o pecado sexual.
lista quatro itens antes de mencionar abominação, e nenhum deles é sexual: soberba, fartura, ócio e recusa em socorrer o necessitado. acrescenta sangue, órfão e viúva. Ignorar isso é escolher metade da evidência.
Dizem que:Jesus nunca falou de Sodoma.
Falou três vezes, sempre comparando-a a cidades que rejeitaram os mensageiros enviados a elas — e sempre concluindo que a situação dessas cidades era pior que a de Sodoma.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Ênfase na injustiça social
A acusação de fundo é prosperidade sem misericórdia, e é essa que Ezequiel e Isaías explicitam. Sustenta-se em citações diretas; sua fraqueza é precisar tratar e como periféricos.
Ênfase na violência sexual
O que a narrativa mostra é uma cidade que tenta violentar hóspedes, e Judas confirma a dimensão. Apoia-se no episódio central; sua fraqueza é precisar minimizar a lista explícita de Ezequiel.
Leitura acumulativa
A Bíblia descreve Sodoma por camadas — arrogância, opulência, indiferença, violência, rejeição do estrangeiro — e nenhum texto isolado esgota a acusação. É a leitura que exige menos omissões, e a que a maioria dos comentaristas adota hoje.
No original3 termos
תּוֹעֵבָהtoʿevah
"Abominação". Em Ezequiel cobre idolatria, injustiça e práticas sexuais proibidas. O versículo 50 a usa sem especificar qual, o que é uma limitação real do texto.
גָּאוֹןgaʾon
"Soberba, arrogância". O primeiro item da lista de Ezequiel, e a raiz da qual os outros três decorrem na lógica do profeta.
σαρκὸς ἑτέραςsarkos heteras
"Outra carne". A expressão de . Comentaristas divergem entre transgressão sexual em geral e a tentativa contra os visitantes angelicais de .
O que fazer com isso
O que Ezequiel faz com Sodoma é mais incômodo do que a lista em si. Ele a usa como espelho para o povo de Deus — e conclui que Jerusalém era pior.
A acusação central contra a cidade, na formulação do profeta, é ter tido pão e sossego de sobra e não ter estendido a mão a quem não tinha. É uma frase que se lê com facilidade e se aplica com desconforto, porque não descreve um crime espetacular. Descreve uma omissão confortável.
Quem quiser usar Sodoma como argumento sobre outra pessoa vai encontrar, em Ezequiel e em Isaías, a passagem sendo usada em outra direção: contra os que se consideravam os de dentro.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Qual passagem tem mais autoridade, Gênesis ou Ezequiel?
Nenhuma anula a outra. Gênesis narra o episódio; Ezequiel dá o diagnóstico de fundo, e o faz para acusar Jerusalém. Ler as duas juntas é a única leitura que não exige descartar texto.
Sodoma é usada como argumento sobre homossexualidade hoje. Isso é legítimo?
descreve violência coletiva contra hóspedes, não uma relação consentida, e é aí que a aplicação direta encontra resistência. A discussão cristã sobre o tema se apoia principalmente em outras passagens, e é honesto reconhecer isso ao citar Sodoma.
Sodoma existiu?
Há candidatos arqueológicos na região sudeste do mar Morto, e nenhum consenso. O texto trata a cidade como real e a usa como referência histórica ao longo de todo o cânon.