
O rico e Lázaro é uma parábola ou um relato do além?
Lucas 16 descreve como é o inferno?
E estando no Xeol em tormentos, ele levantou seus olhos, e viu a Abraão de longe, e a Lázaro junto dele.
Resposta curta
A discussão sobre o gênero é antiga e importa: se for parábola, os detalhes servem à história; se for relato, descrevem o além.
Dois dados alimentam cada lado. A favor de parábola: está numa sequência de parábolas, e o capítulo inteiro trata de dinheiro, com os fariseus "avarentos" ouvindo. A favor de relato: é a única história de Jesus em que um personagem recebe nome próprio.
O que os dois lados concordam é sobre o alvo. A história termina numa frase sobre Moisés e os profetas, e não numa descrição de tormento.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoA frase final — "tampouco acreditarão, ainda que alguém dos mortos ressuscite" — é dita antes de , onde outro Lázaro sai do túmulo, e o resultado registrado é que as autoridades decidem matar os dois. E antes da própria ressurreição de Jesus. Lucas coloca a sentença na boca de Abraão como diagnóstico, e a história posterior a confirma.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Há uma discussão antiga sobre se essa é uma parábola ou um relato literal do que acontece depois da morte — os dois lados têm argumentos, e a história tem elementos que quase ninguém entende ao pé da letra, como uma conversa entre os dois lados depois da morte. Mas o que os dois lados concordam é sobre o alvo da história: ela responde a líderes religiosos que zombavam de Jesus por causa do dinheiro.
O rico não é condenado por ser rico — é condenado por uma indiferença diária. Lázaro estava à porta dele todos os dias, e o rico nunca o expulsou nem maltratou; simplesmente passava por ele sem fazer nada. E o detalhe mais forte é que, depois da morte, o rico sabe o nome de Lázaro — ele sempre soube quem era. O final da história também é o mais esquecido: a resposta não é sobre o além, é sobre ouvir o que já foi dito antes, porque nem uma ressurreição convenceria quem já decidiu não ouvir.
Contexto histórico
O capítulo 16 é sobre dinheiro do começo ao fim. Começa com a parábola do administrador infiel, passa por "não podeis servir a Deus e a Mamom", e o versículo 14 registra a reação: "e os fariseus, que eram avarentos, ouviam todas estas coisas, e zombavam dele".
É a essa zombaria que a história responde.
O contraste inicial é construído com precisão. O rico vestia púrpura e linho fino — os tecidos mais caros que existiam — e "se regalava todos os dias". Lázaro estava à porta dele, coberto de chagas, desejando as migalhas, e cães lambiam as feridas.
Os dois morrem. E a inversão é total.
O nome Lázaro é a forma grega de Eleazar, que significa "Deus ajudou". O rico não recebe nome — e é essa ausência que muitos comentaristas consideram o detalhe mais eloquente da história.
Aprofundamento
Sobre o gênero, os argumentos merecem exposição.
A favor de parábola: o contexto imediato é de parábolas; a estrutura é típica; e histórias com estrutura semelhante circulavam no mundo antigo — há uma narrativa egípcia e versões rabínicas sobre inversão de sortes depois da morte, e é possível que Jesus estivesse usando um enredo conhecido.
A favor de relato: nenhuma outra parábola nomeia personagens; e Jesus não introduz a história com "um certo homem", fórmula que ele usa em outras.
O problema de tratar o texto como descrição literal do além é que ele traz elementos que quase nenhuma tradição sustenta literalmente: os dois se veem e conversam, há um pedido de água na ponta do dedo, e Abraão administra o lugar. Além disso, a cena acontece antes da ressurreição final, no estado intermediário — e a tradução "Xeol" na Bíblia Livre reflete isso, já que o grego traz *hades*, a morada dos mortos, e não *gehenna*, a palavra usada para o destino final.
O argumento da história está na segunda metade, e é ela que quase nunca é pregada.
O rico pede que Lázaro seja enviado aos cinco irmãos dele. Abraão responde: "têm Moisés e os profetas; ouçam-nos". O rico insiste: se alguém dos mortos for, eles se arrependerão.
E a resposta final é a chave do capítulo: "se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão, ainda que alguém dos mortos ressuscite".
Lucas escreve essa frase sabendo que outro Lázaro ressuscitaria em , e que Jesus ressuscitaria — e que muitos não creram mesmo assim.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:A história descreve literalmente como é o inferno.
A cena traz elementos que quase nenhuma tradição sustenta literalmente — conversa entre os dois lados, pedido de água na ponta do dedo — e usa *hades*, a morada dos mortos, e não a palavra do destino final. A discussão sobre o gênero é antiga e legítima.
Dizem que:O rico foi condenado por ser rico.
A acusação da história é a indiferença diária a alguém que estava à porta dele, e o rico sabe o nome de Lázaro depois da morte. Abraão, no próprio texto, é rico e está do outro lado.
Dizem que:A história é sobre o além.
O clímax é a conversa sobre Moisés e os profetas, e a frase final trata de quem não crê nem diante de uma ressurreição. O capítulo inteiro responde à zombaria de fariseus avarentos.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Parábola
O gênero, o contexto e os paralelos antigos apontam para narrativa didática. O nome próprio é a exceção que precisa ser explicada. É a leitura de boa parte dos comentaristas.
Relato
A nomeação de um personagem e a ausência da fórmula introdutória sugerem narrativa de fato. Leva os detalhes a sério; enfrenta os elementos que ninguém sustenta literalmente.
Questão secundária
O ensino é o mesmo nos dois casos, e a discussão desvia do argumento da segunda metade. Posição prática de vários comentaristas.
No original3 termos
ᾅδηςhades
"Morada dos mortos". Corresponde ao *Sheol* hebraico. Não é a palavra do destino final, que nos evangelhos é *gehenna*.
ΛάζαροςLazaros
Forma grega de *Eleazar*, "Deus ajudou". Único personagem nomeado numa história de Jesus.
κόλπος Ἀβραάμkolpos Abraam
"Seio de Abraão". Expressão do judaísmo da época para o lugar dos justos falecidos — a posição de honra ao lado de alguém à mesa.
O que fazer com isso
A acusação da história é específica, e não é sobre riqueza em si.
Lázaro estava à porta. Todos os dias. O rico não o expulsou, não o maltratou, não é acusado de tê-lo prejudicado. Ele simplesmente passava por ele.
E o detalhe mais duro vem depois da morte: o rico conhece o nome de Lázaro. Pede a Abraão que "envie Lázaro" — duas vezes. Ele sabia quem era.
A indiferença descrita não é ignorância. É conhecimento sem ação, todos os dias, na própria porta.
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
O rico e Lázaro se veem de verdade no além?
A cena descreve isso, e é um dos elementos que levam muitos a lê-la como parábola. Nenhuma outra passagem bíblica descreve comunicação entre os dois lados.
Qual é a diferença entre Hades e Geena?
*Hades* é a morada dos mortos, correspondente ao *Sheol*; *gehenna* é a palavra usada nos evangelhos para o destino final, derivada do vale de Hinom. O texto usa a primeira.
Por que Lázaro tem nome e o rico não?
Não sabemos, e é o detalhe mais comentado da história. A leitura mais difundida é que a inversão começa aí: quem era ignorado tem nome, e quem era notado por todos não tem.
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