
Qual foi o pecado de Onã?
Onã foi morto por causa de masturbação?
E sabendo Onã que a descendência não havia de ser sua, sucedia que quando se deitava com mulher de seu irmão derramava em terra, para não dar descendência a seu irmão.
Resposta curta
Não foi masturbação — o texto descreve coito interrompido, e o motivo está escrito na mesma frase: "sabendo Onã que a descendência não havia de ser sua".
Ele estava cumprindo uma obrigação legal chamada levirato: gerar, com a viúva do irmão morto, um filho que herdaria o nome e a herança do irmão. Onã aceitou o direito conjugal e recusou o dever. O pecado é essa fraude, repetida deliberadamente.
Como isso aponta para Jesus
Trajetória do textoO levirato existe para que um nome não se apague e uma herança não se perca. Rute encontra em Boaz um "resgatador" — *goel* —, que assume por vontade própria um dever que não era estritamente dele, e desse casamento nasce a linha de Davi. O Novo Testamento aplica a mesma categoria a Cristo, chamando-o de quem obteve "eterna redenção" e garante uma herança que não se corrompe. Tamar, aliás, está na genealogia de .
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Não foi masturbação. O texto descreve uma relação sexual interrompida de propósito, repetidamente, e diz o motivo na mesma frase: Onã sabia que o filho não seria contado como seu, e sim como herdeiro do irmão morto. Ele estava cumprindo uma obrigação antiga: gerar, com a viúva do irmão, um filho que herdaria o nome e a herança dele. Aceitou a parte boa — a relação, a posição, a herança maior — e sabotou a única coisa devida.
A palavra usada depois para falar de masturbação, inspirada nesse episódio, foi inventada só no século XVIII — mais de três mil anos depois, sem relação real com o texto.
O capítulo inteiro é sobre esse dever de família, e mostra outra personagem, Tamar, tratada de forma ainda pior — negada o mesmo direito. Quando ela força a situação por outro caminho, o próprio sogro reconhece que ela agiu com mais justiça do que ele.
Contexto histórico
Judá tem três filhos. O mais velho, Er, casa com Tamar e morre. Judá então manda Onã, o segundo, cumprir o dever de cunhado.
O costume é anterior à lei de Moisés e aparece em vários povos do antigo Oriente Próximo. o codifica em Israel: o irmão do falecido toma a viúva, e "o primogênito que ela der à luz sucederá no nome do irmão morto, para que o nome dele não seja apagado".
O peso disso é difícil de sentir hoje. Sem filho, o nome do morto some, a terra da família passa a outro ramo, e a viúva fica sem lugar nenhum na estrutura social. O levirato não é sobre romance; é o mecanismo que impede uma linhagem de desaparecer e uma mulher de ficar desamparada.
Onã sabia disso. E sabia também que, sem herdeiro para Er, a herança do primogênito passaria a ele.
Aprofundamento
O hebraico é preciso onde a leitura popular é vaga. O texto diz que "sucedia que quando se deitava com a mulher de seu irmão, derramava em terra" — a forma verbal indica ação repetida, não um episódio isolado. Onã aproveitou a relação muitas vezes e sabotou o propósito dela todas as vezes.
O próprio versículo dá o motivo, e é o único motivo que o texto oferece: "para não dar descendência a seu irmão". Não há menção a desperdício de sêmen como categoria, nem a autoerotismo, nem a prazer.
A associação com masturbação vem da história posterior da interpretação. A palavra "onanismo" foi popularizada em 1712 por um panfleto inglês anônimo, e adotada pela medicina do século XIX — que a usou para sustentar teorias, hoje inteiramente abandonadas, sobre danos causados pelo hábito. O termo carregou de volta para o texto um sentido que ele não tem.
Há um contraste dentro do próprio capítulo que confirma a leitura. Tamar, privada do direito ao levirato quando Judá se recusa a lhe dar o terceiro filho, se disfarça e engravida do próprio sogro. Judá, ao descobrir, diz: "mais justa é ela do que eu, porquanto não a dei a Selá meu filho". O capítulo julga os personagens pelo cumprimento ou não desse dever, e Tamar entra na genealogia de por causa disso.
É um capítulo inteiro sobre o levirato. Lê-lo como capítulo sobre sexualidade individual é perder o assunto.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:Onã foi morto por se masturbar.
O texto descreve relação sexual com Tamar, interrompida no fim, e repetida. Masturbação não aparece em lugar nenhum da passagem. O termo "onanismo" foi criado em 1712, mais de três mil anos depois.
Dizem que:O pecado foi desperdiçar sêmen.
O próprio versículo dá o motivo — "para não dar descendência a seu irmão". Se o problema fosse o desperdício em si, a lei de Moisés trataria como pecado grave qualquer emissão fora da relação, e trata como impureza ritual comum, resolvida com um banho e o pôr do sol.
Dizem que:É um episódio isolado, sem lei por trás.
codifica exatamente esse dever, com uma cerimônia pública de vergonha para quem se recusasse — o sapato tirado e o cuspe. mostra o mecanismo funcionando, e os saduceus o usam para armar uma pergunta a Jesus em .
Como diferentes tradições cristãs leem2 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura do dever de levirato
O pecado é fraudar a obrigação legal para com o irmão morto e para com Tamar, com o benefício adicional da herança. É a leitura sustentada pelo motivo declarado no próprio versículo e pelo tema do capítulo inteiro. Praticamente consensual entre comentaristas atuais.
Leitura tradicional ampliada
Alguns comentaristas antigos, sem negar o levirato, viam no ato também uma condenação geral ao uso do sexo com propósito frustrado, e é dessa linha que vem parte da discussão histórica sobre contracepção. A leitura existe e é antiga; o texto, porém, dá só um motivo, e não é esse.
No original2 termos
יִבּוּםyibbum
"Levirato". O dever do cunhado de gerar herdeiro para o irmão morto, codificado em e praticado em toda a região desde antes de Israel.
חֲלִיצָהchalitsah
"Descalçamento". A cerimônia pública de recusa do levirato: a viúva tira o sapato do cunhado e cospe diante dos anciãos. A lei previa a recusa — o que Onã fez não foi recusar, foi fingir que cumpria.
O que fazer com isso
O que Onã faz tem um nome fora da linguagem religiosa: aceitar o benefício e recusar a obrigação que vinha junto. Ele fica com a relação, com a posição na casa e com a herança ampliada, e nega a única coisa que era devida.
É um padrão reconhecível — e o texto o trata com uma severidade que surpreende quem chega esperando que a gravidade estivesse no ato físico. A gravidade está na traição de um dever assumido diante de alguém que não podia se defender.
Tamar é a outra metade da lição. Sem recurso legal, ela força a situação por um caminho que o próprio Judá acaba reconhecendo como mais justo do que a conduta dele. O capítulo não a elogia por elegância; elogia por ela ter cobrado o que era devido.
Passagens relacionadas6
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Fontes consultadas3 obras
- Adam Clarke. Commentary on the Bible, 1810.
- John Gill. Exposition of the Entire Bible, 1748.
- Carl Friedrich Keil e Franz Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament, 1866.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
A Bíblia diz alguma coisa sobre masturbação?
Nenhuma passagem trata do assunto diretamente. Onã é o texto mais citado, e não é sobre isso. O que existe são princípios gerais sobre desejo e domínio próprio, aplicados por diferentes tradições de maneiras diferentes.
O levirato ainda vale?
Não para cristãos. É legislação civil de Israel, ligada a herança de terra e continuidade de linhagem tribal, e o Novo Testamento não a retoma. Os saduceus a usam em justamente como caso hipotético de disputa.
Por que Er, o irmão, morreu?
O texto diz apenas que ele era "mau aos olhos do SENHOR" e não especifica. É um dos casos em que Gênesis registra o veredito sem abrir o processo.
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