
É possível perder a salvação, segundo Hebreus 6?
O que significa "impossível renová-los para o arrependimento"?
e então caíram, outra vez renová-los para o arrependimento, porque estão novamente crucificando o Filho de Deus para si mesmos, e o expondo à vergonha pública.
Resposta curta
É um dos textos mais difíceis do Novo Testamento, e a dificuldade é reconhecida por todas as tradições.
O que costuma ser omitido é o versículo 9, três versículos depois: "mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos".
O autor acaba de descrever o cenário mais grave possível e diz aos leitores que não é o caso deles. O aviso funciona como advertência, e o texto declara isso.
Como isso aponta para Jesus
Cumprimento diretoA advertência é seguida imediatamente pela âncora: "a qual temos como âncora da alma segura e firme, e que penetra até o interior do véu, onde Jesus, nosso precursor, entrou por nós". O autor coloca o aviso mais duro da carta ao lado da imagem mais firme de segurança, e as duas coisas convivem no mesmo capítulo.
Respaldo no Novo Testamento: ; ;
Em palavras simples
Esse é um dos textos mais difíceis do Novo Testamento, e essa dificuldade é reconhecida por todas as tradições cristãs. O detalhe que costuma ficar de fora é que, três versículos depois, o mesmo autor diz aos leitores: "esperamos coisas melhores de vocês" — ou seja, o cenário mais grave que acabou de descrever não é o caso das pessoas para quem está escrevendo.
Há pelo menos quatro leituras diferentes sobre o que o texto realmente descreve, sem consenso entre elas. O que todas concordam é que o aviso é sério e foi escrito para produzir movimento, não paralisia: quem lê isso e fica paralisado de medo está reagindo errado, e quem acha que não há risco nenhum está ignorando parte do texto.
Contexto histórico
Hebreus é escrita a cristãos de origem judaica sob pressão para voltar ao judaísmo — provavelmente por causa de perseguição.
A carta inteira argumenta pela superioridade de Cristo: superior aos anjos, a Moisés, a Josué, ao sacerdócio levítico, aos sacrifícios.
E ela é entrecortada por cinco advertências severas. Esta é a terceira e mais dura.
O contexto imediato é uma repreensão por imaturidade: "já devíeis ser mestres… tornastes a ter necessidade de leite". O autor então propõe avançar, e a advertência aparece como razão da urgência.
O parágrafo seguinte muda completamente de tom: "Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra e do trabalho do amor". A advertência está cercada de encorajamento nos dois lados.
Aprofundamento
As leituras principais são quatro, e vale expor cada uma.
A primeira, hipotética: o autor descreve algo que não acontece, para mostrar a gravidade da apostasia. Argumento: o versículo 9 diz que não é o caso dos leitores. Dificuldade: a descrição dos versículos 4 e 5 é detalhada demais para ser hipótese vazia.
A segunda, de falsa profissão: os descritos participaram das experiências da comunidade sem terem sido regenerados. Argumento: as expressões usadas — "provaram", "participaram" — descrevem experiência, e o autor não diz "regenerados" nem "justificados". Dificuldade: a acumulação de termos é forte, e inclui "iluminados" e "provaram o dom celestial".
A terceira, de perda real: é possível apostatar de forma definitiva. Argumento: a leitura mais direta do texto. Dificuldade: precisa conciliar com e .
A quarta, de advertência como meio: a advertência é real e é justamente o instrumento pelo qual os que perseveram perseveram. Argumento: explica por que o texto é tão severo e por que o versículo 9 é tão confiante. É a posição de muitos comentaristas reformados hoje.
O detalhe gramatical mais discutido está no verbo "caíram" e no particípio "crucificando". O grego traz particípios presentes — "estando eles a crucificar de novo" —, o que alguns leem como condição contínua, e não como ato passado.
Outro dado: "impossível" governa "renová-los para o arrependimento", e o texto não diz que Deus não pode perdoar. Diz que não há como renovar quem está naquele estado — o que vários comentaristas leem como descrição do endurecimento, e não como limite do poder divino.
A discussão é antiga e não fechou. O que todas as leituras concordam é que a advertência é séria e foi escrita para ser levada a sério.
O que costumam dizer errado3 afirmações
Dizem que:O texto ensina que qualquer pecado depois da conversão é irreparável.
A descrição é de repúdio deliberado e público — "novamente crucificando o Filho de Deus e o expondo à vergonha". Não descreve falhas, e trata do perdão contínuo.
Dizem que:O versículo 9 não muda nada.
Ele diz "de vós esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos" — o autor declara que os leitores não são o caso descrito. É parte do argumento.
Dizem que:A questão está resolvida por uma das tradições.
Quatro leituras principais têm defensores sérios, e a discussão atravessa toda a história cristã. Apresentá-la como resolvida é ignorar o que as outras tradições têm a dizer.
Como diferentes tradições cristãs leem3 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Advertência como meio de perseverança
O aviso é real e é o instrumento pelo qual quem persevera persevera. Explica a severidade e a confiança do versículo 9. Comum entre comentaristas reformados atuais.
Falsa profissão
Os descritos participaram sem terem sido regenerados. Sustentada pelo vocabulário de experiência e pela ausência de "justificados". Leitura reformada tradicional.
Possibilidade real de apostasia
É possível abandonar de forma definitiva. Leitura mais direta do texto, e a de tradições arminianas. Precisa conciliar com e .
No original3 termos
ἀδύνατονadynaton
"Impossível". Governa "renová-los para o arrependimento" — o texto não diz que Deus não pode perdoar, e sim que não há como renovar naquele estado.
παραπίπτωparapipto
"Cair ao lado, desviar-se". Ocorrência única no Novo Testamento. Distinto de *piptō*, o verbo comum para cair.
ἀνασταυρόωanastauroo
"Crucificar de novo". Particípio presente — "estando a crucificar" —, o que sustenta a leitura de condição contínua.
O que fazer com isso
A função do texto, na carta, é clara: mover pessoas a permanecer.
E o modo como o autor faz isso vale observar. Ele descreve o pior cenário possível, e em seguida diz que espera coisas melhores dos leitores. As duas coisas juntas.
Quem lê o capítulo e fica paralisado de medo está tendo uma reação que o versículo 9 pretende evitar. Quem lê e conclui que não há risco algum está ignorando os versículos 4 a 6.
O texto foi construído para produzir movimento, e o parágrafo seguinte diz para onde: "sede imitadores daqueles que pela fé e paciência herdam as promessas".
Passagens relacionadas6
Toque numa referência para ler o texto sem sair da página.
Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible, 1710.
- Henry Alford. The Greek Testament, 1863.
- Albert Barnes. Notes on the Bible, 1834.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem tem medo de ter cometido esse pecado, cometeu?
Comentaristas de todas as tradições respondem que a preocupação em si é evidência do contrário. O estado descrito é de repúdio deliberado, e não de angústia por ter falhado.
Qual a relação com o pecado imperdoável dos evangelhos?
São textos distintos — fala de blasfêmia contra o Espírito, e Hebreus fala de apostasia depois de participação. A tradição frequentemente os aproxima, e eles não são a mesma coisa.
Por que a carta tem cinco advertências?
Porque os leitores estavam sob pressão para abandonar a fé e voltar ao judaísmo. As advertências são intercaladas com argumentos sobre a superioridade de Cristo — o padrão é constante na carta.
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