
O cerco de Samaria: por que a Bíblia conta que mulheres comeram os próprios filhos
Por que a Bíblia conta que mulheres comeram os próprios filhos em 2 Reis 6?
Depois disto aconteceu, que Ben-Hadade rei da Síria juntou todo seu exército, e subiu, e pôs cerco a Samaria. E houve grande fome em Samaria, tendo eles cerco sobre ela; tanto, que a cabeça de um asno era vendida por oitenta peças de prata, e a quarta parte de uma porção de esterco de pombas por cinco peças de prata. E passando o rei de Israel pelo muro, uma mulher gritou-lhe, e disse: Socorro, rei, senhor meu. E ele disse: Se o SENHOR não te salva, de onde eu tenho de te salvar? Do granário, ou da prensa de uvas? E disse-lhe o rei: Que tens? E ela respondeu: Esta mulher me disse: Dá aqui o teu filho, e o comamos hoje, e amanhã comeremos o meu. Cozinhamos, pois, meu filho, e o comemos. O dia seguinte eu lhe disse: Dá aqui o teu filho, e o comamos. Mas ela escondeu seu filho. E quando o rei ouviu as palavras daquela mulher, rasgou suas roupas, e passou assim pelo muro: e chegou a ver o povo o saco que trazia interiormente sobre sua carne. E ele disse: Assim me faça Deus, e assim me acrescente, se a cabeça de Eliseu filho de Safate restar sobre ele hoje.
Resposta curta
Durante o cerco de Samaria pelo rei arameu Ben-Hadade, a fome chega a um ponto em que uma cabeça de jumento, animal impuro e normalmente descartado, é vendida por oitenta peças de prata, e um pouco de esterco de pombas por cinco. No meio dessa miséria, uma mulher grita ao rei de Israel pedindo socorro e conta algo terrível: ela e outra mulher haviam combinado comer os próprios filhos, um em cada dia. Comeram o primeiro; na vez do segundo, a mãe o escondeu.
O rei rasga as vestes em horror, mas em vez de se voltar a Deus, jura matar o profeta Eliseu, como se ele fosse o culpado pela fome. O texto não elogia nem explica esse sofrimento — apenas registra, com crueza, até onde um cerco prolongado pode levar pessoas comuns.
Como isso aponta para Jesus
ContrasteO relato mostra o fundo do abismo a que uma aliança quebrada conduz — a maldição anunciada em e se cumpre de forma literal, revelando que o pecado coletivo tem consequências que atingem até os laços mais sagrados, entre mãe e filho. O Novo Testamento fala dessa mesma categoria — a maldição da lei quebrada — como algo que Cristo assume sobre si mesmo: não como resposta direta a este episódio específico do cerco de Samaria, mas como o padrão que ele reverte. Paulo escreve que 'Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós' (). Onde a aliança quebrada produz desespero e morte entre os mais vulneráveis de um povo sitiado, o evangelho anuncia um Filho que carrega essa mesma maldição para que ela não recaia, de forma definitiva, sobre o povo de Deus.
Respaldo no Novo Testamento:
Contexto histórico
O cerco de Samaria por Ben-Hadade, rei de Arã-Damasco, acontece durante o reinado de um dos filhos de Acabe sobre Israel — o texto não nomeia esse rei, mas o contexto do ciclo de Eliseu em aponta para Jorão. Arã e Israel viviam havia décadas em conflito intermitente, e cercos prolongados de cidades fortificadas eram tática comum na guerra antiga: cortar o abastecimento até forçar a rendição pela fome. Samaria, capital do reino do Norte desde os dias de Onri, tinha muralhas fortes, o que tornava o cerco mais longo — e a fome, mais extrema.
Os preços do versículo 25 comunicam a gravidade em termos que o leitor original entenderia de imediato: uma cabeça de jumento — animal impuro segundo a lei e normalmente sem valor como alimento — vendida por oitenta peças de prata, soma altíssima; e uma pequena quantidade do que o hebraico chama de esterco de pombas, por cinco peças. Comentaristas notam que essa expressão hebraica é rara e discutida: pode designar literalmente excremento, usado como último recurso em fomes severas, ou, segundo alguns, o nome popular de um tipo de vagem silvestre; de qualquer forma, o efeito retórico é o mesmo — o alimento mais reles e barato imaginável passou a custar uma fortuna.
O clamor da mulher ao rei, "Socorro, rei, senhor meu", usa a mesma linguagem formal de apelo que súditos empregavam para pedir justiça real: o rei, na antiga Israel, também funcionava como juiz de última instância em casos que a lei comum não resolvia. A resposta do rei, "Se o SENHOR não te salva, de onde eu tenho de te salvar?", é amarga: ele reconhece que só Deus poderia resolver uma fome dessa magnitude, mas fala como quem já desistiu de esperar por isso.
O que a mulher revela em seguida — o acordo entre duas mães para comer os próprios filhos, um de cada vez — cumpre de forma literal e chocante a advertência registrada séculos antes em e , textos que descreviam esse horror como consequência extrema de um cerco sob o juízo da aliança quebrada. O rasgar das vestes do rei era o gesto público padrão de luto; o saco que ele já trazia por baixo da roupa real sugere que, apesar da fúria contra Eliseu, ele já vinha se humilhando diante da crise antes mesmo de ouvir esse relato.
Aprofundamento
Poucos textos bíblicos são tão brutais quanto este, e a Bíblia não amortece o golpe. Não há comentário narrativo dizendo "isso foi terrível, mas necessário", nem uma voz que justifique o sofrimento das crianças e das mães. O texto simplesmente registra o que aconteceu, com a mesma crueza factual de uma crônica de guerra — porque, essencialmente, é isso que 2 Reis é: um registro histórico dos reis de Israel e Judá, incluindo os capítulos mais sombrios.
Essa crueza é teologicamente significativa. A Escritura já havia descrito esse exato cenário — canibalismo materno durante cerco — como o ponto mais extremo das maldições que recairiam sobre a aliança quebrada (; ). Não é um evento aleatório dentro da narrativa: é a Bíblia mostrando, sem eufemismo, o preço final de gerações de idolatria sob a dinastia de Acabe, que havia introduzido o culto a Baal em Israel. O texto não diz que Deus quis esse sofrimento, mas também não esconde a direção para onde uma nação em rebelião persistente pode caminhar.
A reação do rei é o ponto mais revelador do episódio. Ao ouvir o relato, ele rasga as vestes — gesto correto de luto — mas sua explosão seguinte não é arrependimento: é fúria contra o profeta Eliseu, como se a palavra de Deus, e não a idolatria da nação, fosse a causa da fome. É uma reação humana reconhecível: diante da dor, é mais fácil culpar quem fala de Deus do que examinar o próprio caminho. O sarcasmo anterior do rei — "Se o SENHOR não te salva, de onde eu tenho de te salvar?" — já indicava essa distância: ele sabe que só Deus resolve isso, mas fala como quem parou de esperar por Deus.
O contraste que o capítulo seguinte, , oferece é essencial para entender este texto. Ali, sem aviso e no auge do desespero, o cerco termina de um dia para o outro: os arameus fogem em pânico, e a comida que valia fortunas passa a ser vendida por quase nada. O propósito literário de não é apenas chocar — é preparar o leitor para reconhecer, por contraste, o tamanho da reviravolta que só Deus poderia operar. A pergunta "onde Deus estava" que o texto provoca é respondida, na narrativa, pelo capítulo seguinte: Deus agindo, mas em seu próprio tempo, depois de deixar a situação chegar ao fundo do poço.
Esse tipo de texto lembra que a Bíblia não filtra a realidade da guerra e da fome para parecer mais palatável. Ela relata o horror como horror, sem transformá-lo em lição fácil — e é essa honestidade que dá credibilidade ao restante do relato.
O que costumam dizer errado2 afirmações
Dizem que:Essa história é só um exagero literário, não aconteceu de fato.
O relato está integrado à crônica histórica dos reis de Israel, no mesmo registro factual usado para eventos políticos e militares do livro. Fomes com canibalismo durante cercos prolongados são atestadas em outros registros antigos de guerra, o que torna o episódio plausível historicamente, e não apenas uma figura de retórica.
Dizem que:Deus instruiu ou aprovou o que as mulheres fizeram.
O texto não atribui a Deus nenhuma ordem ou aprovação; ele descreve o desespero humano no auge de um cerco, sem elogiar o ato. A narrativa é descritiva, registrando o que aconteceu, não prescritiva.
Como diferentes tradições cristãs leem4 leituras
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Reformada
Enfatiza que o episódio é cumprimento histórico das maldições anunciadas em e para a aliança quebrada; a soberania de Deus permanece por trás do juízo mesmo quando o texto não a menciona diretamente, e o relato serve para mostrar a seriedade do pecado coletivo, sobretudo a idolatria promovida pela dinastia de Acabe.
Católica
Lê o texto dentro do arco moral da história sagrada, destacando o livre-arbítrio humano e as consequências da infidelidade coletiva; o horror da cena funciona como advertência retórica contra a idolatria, não como retrato definitivo do caráter de Deus, que no capítulo seguinte providencia uma libertação inesperada.
Arminiana/Wesleyana
Sublinha a resposta do próprio rei — que culpa o Senhor em vez de se arrepender e ameaça matar o profeta — como o verdadeiro ponto de virada trágico do episódio; o sofrimento é fruto de escolhas humanas reiteradas, e a narrativa convida o leitor a distinguir entre o que Deus permite e o que Deus causa.
Pentecostal
Destaca a permanência da palavra profética de Eliseu em meio à fúria do rei, lendo o episódio como preparação para a demonstração de poder de Deus no capítulo seguinte, quando o cerco é quebrado da noite para o dia apesar da incredulidade do rei.
No original3 termos
רָעָבra'avH7458
fome, carestia extrema — usado no versículo 25 para descrever a gravidade do cerco.
חֳרֵי יוֹנִיםchorei yonim
esterco de pombas — expressão rara que descreve o alimento mais reles e barato disponível durante a fome; alguns comentaristas discutem se seria antes o nome de uma vagem ou broto comestível.
צָעֲקָהtsa'akah
grito, clamor de aflição — o mesmo tipo de clamor usado em outros textos para o apelo dos oprimidos por socorro.
O que fazer com isso
Textos como este não pedem uma explicação que resolva o desconforto — pedem que a gente resista à tentação de olhar para o sofrimento alheio e culpar rapidamente quem fala de Deus, como fez o rei diante de Eliseu. Diante de crises que não fazem sentido imediato, vale notar a diferença entre lamentar com honestidade, como no gesto de rasgar as vestes, e descontar a raiva em quem menos tem culpa. E vale lembrar que a ausência de resposta imediata de Deus, no texto, não é o fim da história.
Passagens relacionadas5
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Fontes consultadas3 obras
- Matthew Henry. Comentário Bíblico de Matthew Henry (Antigo Testamento), 1710.
- C. F. Keil e F. Delitzsch. Commentary on the Old Testament: The Books of the Kings, 1865.
- Donald J. Wiseman. 1 and 2 Kings (Tyndale Old Testament Commentaries), 1993.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Deus mandou isso acontecer?
O texto não diz que Deus ordenou o canibalismo; ele narra o desespero extremo causado pelo cerco prolongado. A Bíblia associa fomes desse tipo às consequências anunciadas para a rebelião contra a aliança (), mas o ato das duas mulheres é delas, não um mandamento divino.
Por que o rei quis matar Eliseu?
O texto não explica totalmente o motivo, mas o rei parece culpar o profeta — representante da palavra de Deus — pela calamidade, num gesto de raiva contra quem fala de Deus em vez de um movimento de arrependimento.
Essa história realmente aconteceu?
O relato está inserido na crônica histórica dos reis de Israel, e fomes com canibalismo durante cercos prolongados são atestadas em outros registros antigos de guerra, incluindo o cerco romano de Jerusalém em 70 d.C., narrado por Flávio Josefo.
O que aconteceu depois desse episódio?
No capítulo seguinte, , o cerco termina de forma repentina e inesperada: os arameus fogem em pânico durante a noite e Samaria é abastecida de um dia para o outro — o texto anterior serve de pano de fundo para esse contraste.
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