Melquisedeque
quem foi melquisedeque
Ficha do personagem
Tempo dos patriarcas, contemporâneo de Abrão
Relações
- abençoou Abrão
Resposta curta
Melquisedeque aparece em três versos de Gênesis, some, reaparece num único verso de um salmo mil anos depois, e então ocupa três capítulos de Hebreus. Poucos personagens bíblicos têm essa trajetória.
Em ele é rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Traz pão e vinho, abençoa Abrão, e recebe o dízimo do despojo. Não há genealogia, não há relato de nascimento ou morte, e ele não volta a ser mencionado no Pentateuco. É esse silêncio que Hebreus vai explorar.
Onde ele aparece
Como isso aponta para Jesus
Tipologiausa Melquisedeque para argumentar que existe um sacerdócio anterior e independente do levítico, e aplica essa categoria a Jesus, que era da tribo de Judá e não poderia ser sacerdote pela linha de Levi.
Respaldo no Novo Testamento:
Em palavras simples
Melquisedeque aparece em apenas três versos do Gênesis: é rei de Salém e sacerdote, traz pão e vinho a Abrão e recebe o dízimo. O texto não dá genealogia nem conta seu nascimento ou morte — e é justamente esse silêncio que Hebreus usa para falar de um sacerdócio que não depende da descendência de Levi.
O mundo dele
O nome é hebraico e transparente: malki-tsedeq, "meu rei é justiça" ou "rei de justiça". Salém é geralmente identificada com Jerusalém, e acrescenta que "rei de Salém" significa rei de paz, ligando o topônimo a shalom.
A cena de é breve e estranha. Abrão volta de uma batalha em que resgatou Ló, e dois reis vêm ao seu encontro: o de Sodoma e o de Salém. O texto intercala os dois encontros, e o contraste é evidente — um oferece bens, o outro oferece bênção. Abrão recusa o primeiro e entrega o dízimo ao segundo.
O que torna Melquisedeque teologicamente relevante é a combinação de funções. Ele é rei e sacerdote ao mesmo tempo, o que na estrutura posterior de Israel seria impossível: o sacerdócio pertencia à tribo de Levi, e a realeza à de Judá. As duas linhas não se cruzavam, e o rei Uzias é castigado em justamente por tentar exercer função sacerdotal.
retoma o nome numa afirmação dirigida ao rei: tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque. É o único texto do Antigo Testamento fora de Gênesis a mencioná-lo, e é o gancho de que Hebreus se serve.
A história
constrói um argumento cuidadoso, e vale acompanhá-lo porque ele explica por que um personagem tão obscuro ganhou tanta importância.
O autor observa que Melquisedeque aparece "sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida". A frase gerou discussão: alguns leitores antigos entenderam que ele seria um ser sobrenatural ou uma aparição do próprio Cristo. A leitura mais aceita hoje é que o autor está argumentando a partir do silêncio do texto, e não fazendo afirmações biográficas — num livro em que genealogia sacerdotal era requisito, a ausência dela é o dado.
O segundo passo do argumento é o dízimo. Abrão entrega o dízimo a Melquisedeque, e Levi, do qual viria o sacerdócio, ainda estava, como diz o texto, nos lombos de Abrão. A conclusão é que o sacerdócio de Melquisedeque é anterior e superior ao levítico.
O terceiro passo é o salmo. Se anuncia um sacerdote segundo essa ordem, então se previa um sacerdócio que não dependeria da descendência de Levi — e é isso que permite ao autor aplicar a categoria a Jesus, que era da tribo de Judá.
Sobre a identificação com Cristo: a leitura de que Melquisedeque seria uma manifestação pré-encarnada tem defensores antigos, mas encontra dificuldade no próprio Hebreus, que diz que ele foi feito "semelhante ao Filho de Deus" — o que pressupõe distinção.
O que costumam dizer errado2
Dizem que:Melquisedeque era Jesus antes da encarnação.
É uma leitura antiga, mas diz que ele foi feito semelhante ao Filho de Deus, o que pressupõe distinção. A leitura mais aceita é que o autor argumenta a partir do silêncio do texto de Gênesis.
Dizem que:Melquisedeque não tinha pais nem nasceu.
Hebreus está descrevendo o que o texto de Gênesis registra, não a biografia do homem. Num sistema em que genealogia sacerdotal era requisito, a ausência dela é o argumento.
Como diferentes tradições cristãs leem3
Cristãos comprometidos com a Bíblia divergem aqui. As leituras abaixo estão descritas como seus próprios defensores as descreveriam — este site não escolhe por você.
Leitura argumentativa
Entende as afirmações de como argumento a partir do silêncio do texto de Gênesis, e não como descrição biográfica. É a leitura majoritária.
Leitura cristofânica
Entende Melquisedeque como manifestação pré-encarnada de Cristo. Tem defensores antigos, mas enfrenta a dificuldade da expressão "semelhante ao Filho de Deus".
Leitura histórica
Trata-o como rei cananeu de Jerusalém que adorava o Deus Altíssimo, e vê no episódio o reconhecimento de uma tradição religiosa anterior a Israel.
O que fazer com isso
Ao ler , note que o encontro com Melquisedeque está encaixado entre dois momentos do encontro com o rei de Sodoma. O contraste é construído pelo próprio texto, e ele antecede em muito a leitura de Hebreus.
Passagens relacionadas5
Fontes consultadas2
- Francis Brown, S. R. Driver e Charles A. Briggs. A Hebrew and English Lexicon of the Old Testament, 1906.
- James Strong. Strong's Exhaustive Concordance of the Bible, 1890.
Obras em domínio público. A bibliografia completa e o método estão em Fontes e bibliografia.
Perguntas frequentes
Quem foi Melquisedeque?
Rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, segundo . Aparece em três versos, abençoa Abrão e recebe o dízimo. O texto não informa origem nem destino.
Por que ele é tão importante em Hebreus?
Porque a combinação de rei e sacerdote na mesma pessoa era impossível na estrutura de Israel, e porque anuncia um sacerdote segundo essa ordem. Isso permite falar de um sacerdócio que não depende de Levi.
Salém é Jerusalém?
É a identificação geralmente aceita. acrescenta que o nome se liga a paz, ligando o topônimo à raiz de shalom.